A ROMARIA DE SANTO ANTÓNIO DOS CABAÇOS

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Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. (Séc. XVIII)

Na planura austera da Serra dos Cabaços, onde assenta o pequeno povoado de S. Gosmado, do Município de Mangualde, lá onde já ninguém corta lenhas de lareira nem vagabundeiam gados como antigamente, levantou o pároco José Rebelo de Mesquita – que, à data de 9 de Junho de 1758, assinava o texto das Memórias Paroquiais, que o Marquês de Pombal, através de circular enviada ao seu bispo, lhe solicitara – uma pequena capela de planta sextavada ao jeito do barroco então em moda.

E é esse solícito pastor de almas, que não de rebanhos, quem nos fala da importância do lugar no longo texto que assina:

À ermida de Santo António de Cabaços acodem muitos fiéis cristãos em romaria todos os dias do ano, e nos dias santos em maior número, oferecendo ao mesmo santo muitas ofertas de dinheiro, trigo, centeio, milho, feijões, borregos, porcos vivos e muitas cabeças de carne de porco, ovos, mel, azeite, cera, e mortalhas, tudo com grande abundância.

Nesse caminho de transumância, que levava os rebanhos à Serra do Montemuro e, hoje, apenas se percorre e celebra como festa, se instituíra, decerto, uma espontânea prática devocional a Santo António, que o povo tomara como patrono dos seus gados e animais domésticos e que o atento pároco oficialmente sacraliza com o levantamento da capela, que se tornou local de devoção popular.

Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. Romaria dos gados. (volta no sentido sinistrorsum)

No dia 13 de Junho de cada ano, o dia que o calendário dedica a Santo António, ali vem o povo de uma larga redondeza, cumprindo votos ou tão só atraídos pela mística do lugar. E ali vêm, de há séculos, agora mantendo a tradição, os pastores que ainda resistem.

Vestem com os tradicionais enfeites de festa, cores garridas e lãs de cores, chocalhos que impressionam pela grandeza e pelo soar festivo, o rebanho que conduzem, como promessa antiga, o velho cão por companheiro e, à meia tarde, sob os curiosos olhares da gente, inicia-se a tradicional romaria de cada um dos rebanhos à volta da popular ermida.

Evocando velha tradição, a primeira volta conduzida à volta da capela faz-se no sentido sinistrorsum, mágico caminho que prevenirá potencial desgraça que possa acontecer ao rebanho. E, só depois da primeira volta completa, o rebanho retorna, caminhando no sentido dextrorsum, uma e outra vez, dando depois lugar ao rebanho seguinte.

E o voto fica cumprido com a oferta de um cordeiro ao santo tutelar. O sacerdote fará depois, de acordo com o texto do ritual, a bênção dos rebanhos, que voltarão à sua serra.

Ao findar da tarde, de sob as tendas montadas onde se partilharam merendas e conversas, despedem-se os romeiros. Muitos deles prometerão voltar.

Festa de Santo António dos Cabaços (procissão)

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