Escrever sobre o Alentejo é navegar num mar de ilhas conhecidas, umas melhor que outras, vistas através da bruma do tempo, com súbitas revelações onde já nada esperávamos. Assim, passei o Tejo, muito pelo interior, evitando a confusão do litoral e admirando-me novamente por existir o silêncio das paisagens, uma aldeia aqui, um rebanho de ovelhas mais além. Até Estremoz, onde, como em Coimbra, paira a memória de uma Rainha.

Avistado o castelo e o casario amuralhado que o rodeia, logo as memórias voltam, como as andorinhas, aqui muito mais numerosas que nas margens do Mondego, memórias de dois tempos marcantes da minha vida. Do tempo em que era criança e tinha brinquedos que custavam o que um ganhão recebia por um mês de trabalho, quando o tinha. Desse tempo guardo muitas memórias, da casa grande sobre a praça, do velho café “Águias dʼOuro”, onde ia com meu Pai, café hoje encerrado, talvez desaparecido para sempre e com ele uma parte do meu tempo vivido e revivido nos anos sessenta. Desapareceu também a árvore do caramanchão do centro do jardim, onde entretive horas da minha infância, jardim em que o busto do fundador da Cruz Vermelha deu origem a uma polémica regional nos já tão longínquos anos cinquenta. Coisa para historiadores ou para quem vive ainda do que sobrou desses tempos. Valha-nos a honrada açorda alentejana, como a lembrou Ramalho Ortigão, e aquele tempo sem tempo, luminoso e quente.
A segunda vivência, rápida e densa, tem que ver com o Regimento de Cavalaria, onde cheguei em Maio de 1965, na perspectiva da mobilização para África. A Unidade ainda se mantem em Estremoz, felizmente, e a minha atribuição ao RC 3, que foi decisiva para a minha vida, pois aqui conheci a minha futura mulher, também ela passageira na cidade, mostra como o que decide os nossos destinos não depende, minimamente, da nossa vontade. Junto ao quartel, o Lago do Gadanha lá continua, enriquecido por uma profusão de jactos de água, brilhante de luzes durante a noite, água que sempre teve um lugar na história do Alentejo e de Estremoz, que ostenta no seu brasão os dois reservatórios que os romanos aqui construíram, um dos quais – o Tanque dos Mouros – ainda se pode ver junto à estrada para Elvas. Também neste caso os Mouros ficaram com os louros da construção, como é habitual tradição popular. E é de romanos que vos quero falar, agora de águas salgadas navegadas por heróis de mito, como o que está presente no mosaico da villa romana de Santa Vitória do Ameixial, aqui bem perto de Estremoz, no cenário esquecido da formidável vitória ganha sobre o exército espanhol em 8 de Junho de 1663.

Este sítio arqueológico tem história complicada, desde a sua descoberta no início do século passado. Entre os materiais nele encontrados, em parte exilados no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, conta-se o grande mosaico de Ulisses, presentemente em restauro no Museu Nacional de Conímbriga, onde quase foi vítima da tempestade Kristin. Mas voltemos ao Alentejo e ao mosaico, decerto obra de artistas itinerantes idos da capital lusitana, Mérida, a cujo território pertenceria a área de Estremoz. A representação do tema, um muito famoso episódio da Odisseia homérica (Fig. 4), segue um modelo muito divulgado no mundo romano. O herói escuta as sereias atado ao mastro do navio, enquanto os tripulantes, aqui em posição incorrecta, remam, nada ouvindo por terem os ouvidos tapados com cera, atitude que, se os preservou da insanidade, também os impediu de ouvir belas melodias.

Que fazer, quando não há subterfúgio possível? As sereias nada têm a ver com as das suas representações nórdicas, de que a Sereiazinha de Copenhaga é a mais famosa, suspirando sob as brumas pelo sol meridional. São figuras passariformes, empoleiradas nos rochedos onde faziam naufragar os navegantes inebriados pelo seu canto, nada bonitas, pois o artista pretendeu transmitir uma tensão repulsiva que oprime o observador.

Não sendo uma obra-prima reflecte bem a difusão de temas clássicos pela Lusitânia e o gosto que por eles tinha a classe que os podia encomendar. Espero que o restauro em curso compense o mosaico dos maus-tratos que antes sofreu. Seria excelente para a Arqueologia e para Estremoz que se construísse um centro de interpretação junto das ruínas, onde agora se verificam novas escavações, e que nele fosse recolhido o mosaico. Já é tempo de Ulisses terminar as suas deambulações e perigosas aventuras, regressando à terra alentejana, onde afinal sempre houve sereias.
Não visitei as ruínas, pois preferi retomar nestes dias o contacto com Estremoz e outros sítios em torno, como o Convento de S. Paulo, na Serra da Ossa, por onde andou Frei Manuel do Cenáculo, um dos pioneiros da Epigrafia luso-romana. É deveras estranho, pode ser doloroso, revisitar espaços que fizeram parte da nossa vida e não conhecermos ninguém, estrangeiros numa terra não estranha, apesar da perda, ou recusa, de locais de referência. Não visitei a Mata, em requalificação, como não consegui ir até ao muro, agora derruído, frente à Torre de Menagem onde fotografei pela primeira vez a minha futura mulher. Não vos falarei dos museus de Estremoz, que os tem, pois não pretendo traçar um roteiro turístico. Também recusei o impulso de entrar no átrio da antiga Escola Industrial e Comercial, onde a conheci, numa noite longínqua de 1965, no meu segundo tempo de Estremoz. Não estarei já na altura de voltar a ouvir as sereias e esquecer o resto? Fui até à Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Olivais, outro sítio de memória nos arredores da cidade, e ali voltei atrás e agradeci, sentindo a solidão, o que me foi concedido.

Depois fui até Évora Monte, que visitei pela primeira vez. Estive lá perto, acampado durante duas semanas, durante a fase final de instrução do Batalhão de Cavalaria 1868. Tantas vezes vi o castelo de Évora Monte, em fim de tarde, da praça frente à torre do alcácer estremocense! E mutos anos antes, em Évora, quando descia para a Escola de S. Mamede, lá estava Évora Monte ao longe, ocultando-me o que eu mais desejava ver, Estremoz. Uma autêntica baliza entre dois espaços, não apenas geográficos e temporais, mas entre dois mundos interiores. Subi ao castelo de Évora Monte e vi uma povoação deserta, deserta, alcandorada no seu Monte e ali vi bem Estremoz sem conseguir ver Évora. Tempo inverso, que tempo, negando a completude? Um pouco como os companheiros de Ulisses, remando ao contrário no seu navio, que viram, mas não ouviram.
Mais importante que ver e ouvir, e hoje em dia há tantas luzes e tantos sons, que bem podem ser cantos de sereia, é sentir, e nestes dias senti o Alentejo tomar conta de mim, embalar-me, e voltei a um tempo em que ouvi sereias e com elas me encantei e encontrei. Passei o Tejo, agora em sentido contrário, em direcção à rotina conimbricense e, não sei como, pareceu-me ouvir uma melopeia que me sussurrava: regressa, regressa… Provavelmente algumas vibrações que a viatura criou ao deslizar sobre o paredão da barragem, onde o Tejo contava histórias sobre o romano que o venceu, não muito longe dali, em Alcântara.




Muito bom!
MJM