A PORTA DO SOAR

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A Porta do Soar, uma de entre as sete portas que se rasgavam no muralhado antigo da cidade levantado às ordens de D. Afonso V (século XV), abria sobre o poente e, passos andados até ao velho Rossio de Massorim, ali se desdobrava em caminhos. Um deles, principal, seguia até ao mar e por ele subiam carreteiros com lenhas, frutas e almocreves com odres de azeite e barricas de peixe que vinha de Aveiro e de outros portos de mar com os carregos de sal. Obedientes às leis do concelho, faziam descarga na praça ora de D. Duarte, que foi Rossio do concelho, cortando na Rua das Estalagens (ora Rua Grão Vasco), onde alguns se demoravam.

Por esta e outras portas entrava e saía gente;  apenas se fechava em tempo de pestilência ou de guerra. Comprava-se e vendia-se no quotidiano mercado ou nas bancas armadas nas feiras de terça-feira. E era caminho para cumprir obrigações nos Paços do Concelho, para pagamento dos dízimos devidos à igreja ou as prestações impostas pela Coroa, tantas vezes.

E era o rodopio dos vizinhos no fervilhante quotidiano da urbe. Lavadeiras descendo às margens da Ribeira; mulheres na ida à fonte antes que a água tivesse subido às moradas; soldados, abades, a criadagem da fidalguia, artesãos e lojistas que entravam de manhã para sair ao fim do dia; viajantes e romeiros requerendo pousada por um dia, enxerga e manta, loja para abrigo da montada e mesa posta, pão e vinho, que lei era servir bem nas estalagens.

E a taberna – que, no tempo dos Romanos, já havia sido inventada – era também lugar de abrigo, de encontro, ócio ou refeição. A tabuleta pintada ou o ramo de loureiro eram marca, na entrada.

Teve sorte, esta porta, como sorte teve a Porta dos Cavaleiros, de não ter sido mandada derribar pela Câmara em 1844. Teve a sorte de permanecer inteira, como ainda se mantém, cravada na face exterior, em 1646, a lápide que consagra o Reino a Nossa Senhora da Conceição e, mais alto, ostensivo, o real brasão.

Dentro da praça recolhida – que, um dia, foi Praça da Erva e hoje se diz Largo Pintor Gata (esse estranho apelido que tomou José de Almeida Furtado, que viveu de 1778 a 1831) – se edificou a harmoniosa capela, de traça octogonal, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, benzida em 1749 e que foi construída com esmolas dos devotos, como assinala a inscrição, datada de 1742, no lintel da sua porta, e doações da vizinha fidalguia do Solar dos Melos, que exigiu abrir privada porta com acesso a uma tribuna.

2 COMENTÁRIOS

  1. Como não nos explicava a razão de tão estranho topónimo, quisemos saber do autor o que se lhe oferecia dizer a tal respeito. E aí vai a pronta resposta:

    Infelizmente não sei responder.
    Popularmente conhecida como a Porta do Soar, é verdadeiramente a Porta de S. Francisco, mercê da imagem em nicho exterior, como todas as sete portas tinham, cada uma dedicada a uma figura tutelar.
    É também designada como Arco dos Melos, mercê do Solar de Família ali construído sobre sobre parte da muralha.
    Diz-se SOAR DE CIMA um amplo lugar que se estende para além da porta seguindo a muralha ou descendo para Poente em direcção ao Rossio onde Almeida Moreira teve a sua casa sempre designada como a Casa de SOAR DE CIMA por oposição à parte baixa que já é o Rossio da cidade, hoje Praça da República.
    Nem Lucena e Vale, nem Alexandre Alves, doutos historiadores explicaram o designativo “Soar”. Nem Botelho Pereira nos seus Diálogos, no séc. XVII. Não há ali campânula para tal.
    Nem sequer uma lenda foi criada. Tradição “dixit”!…
    Pode escrever-se Porta de S. Francisco. Nós vamo-la reconhecendo com o poético nome de Soar.
    Um abraço.
    Alberto Correia

    • Perguntando a quem sabe, obtem-se esta resposta: os historiadores e linguistas apontam que a palavra medieval “Soar” deriva do termo latino solium (assoalho, solo firme ou local plano) ou, em alternativa, de solarium (eira, terraço exposto ao sol ou zona soalheira). Em Viseu, a zona do Soar correspondia a uma zona alta, aberta e soalheira da cidade.
      A designação “Porta do Soar” deve-se, portanto, à sua localização e à toponímia da Viseu medieval, ligando a zona extra-muros de Maçorim ao antigo bairro ou largo do Soar, situado na zona poente/norte da cidade alta.

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