QUE CADA UM DE NÓS FAÇA A SUA PARTE

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Genocídio em Gaza, antipoemas factuais, do escritor angolano José Mena Abrantes

O nº 43 “O Riso e o Sangue” é um dos meus preferidos. É de uma crueldade absoluta. O nº 43 é um dos 135 textos a que o autor chamou antipoemas factuais. O livro tem um propósito: denunciar o genocídio em curso em Gaza. Diz o autor que espera ter feito a parte que estava ao seu alcance, nessa denúncia urgente. E fez.

Não é um livro de poesia. É um livro de antipoemas. Ou seja, textos com a estética gráfica do poema, mas que podiam ser texto corrido. É uma forma diferente de reproduzir notícias. O conceito de antipoema implica a utilização de linguagem do dia a dia, narrativa prosaica, sem obedecer a métricas ou a rimas.

O autor é José Mena Abrantes, escritor e dramaturgo angolano que, nesta obra, surge como denunciante de atrocidades. Este trabalho já recebeu críticas elogiosas de muitos quadrantes.  

Não me lembro de ter lido antes alguma coisa deste autor, mas o que sei do percurso dele foi ter sido assalariado durante décadas de instituições do regime de Angola. Nunca ouvi falar de alguma crítica dele ao regime, nem isso seria possível, tendo ele sido figura do aparelho de Estado angolano, onde trabalhou diretamente na Presidência da República de Angola, em cargos de grande proximidade com o poder, nomeadamente como assessor de imprensa, secretário para a comunicação e consultor de José Eduardo dos Santos. Foi também um dos fundadores e diretor-geral da agência oficial de notícias do país, a ANGOP. Um homem de um  regime que tem sido criticado por autoritarismo e corrupção.

Nada disso impede agora José Mena Abrantes de vir a terreiro acusar Israel pelo genocídio em curso em Gaza. A denúncia é urgente e deve ser feita por todos nós. Tal como o autor, também nós temos o dever de fazer a nossa parte nessa empreitada na defesa dos direitos humanos.

Mas fica difícil aceitar que um escritor denuncie apenas a injustiça e a opressão quando ocorrem noutras geografias e silencie as injustiças que se passam no quintal da sua própria casa há décadas.

Enquanto leitor tenho de sentir que existe um pacto de verdade entre quem escreve e quem lê e não gosto de suspeitar que o autor escolhe a dedo quais as opressões que merecem o seu repúdio. No entanto, percebo que fica difícil morder a mão de quem nos dá de comer.

Alguns destes 135 antipoemas são interessantes, mesmo se nem todos são convincentes em termos literários. Pela denúncia todos eles valem mais alguma coisa.

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