CRIANÇA DE 5 ANOS APANHA TIRO NO PEITO

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Maria ainda só tinha 5 anos quando foi atingida a tiro no peito. Dali a uns dias a família iria celebrar o sexto aniversário da menina, mas a festa ficou estragada com a bala perdida do disparo de um agente da Polícia Judiciária.

A cena passou-se em outubro de 1987, no antigo bairro Pedreira dos Húngaros, um território difícil onde a pobreza se misturava com injustiça social e discriminação, mistura fértil para o surgimento de muitos pequenos criminosos, bandidos pilha galinhas, tráfico e consumo de droga.

De acordo com relatos publicados na época, o acidente ocorreu cerca das 15 horas, na ocasião em que muitas crianças brincavam nas ruas sujas e esburacadas daquele bairro degradado”.

A bala nunca foi extraída do corpo da pequena Maria. A criança sobreviveu, mas tem tido uma vida com a saúde fragilizada, com dores permanentes provocadas pela bala que permanece a milímetros do coração.

Os relatos publicados confirmam que foram os agentes da Polícia Judiciária que levaram a criança para o hospital. Os mesmos relatos falam da responsabilidade da polícia, que frequentemente entrava no bairro já de pistola na mão.

Passados 40 anos, Maria apresentou uma queixa na Provedoria de Justiça. Quer que o Estado assuma a responsabilidade que tem pelo peso de uma bala cravada no peito desde criança. Numa curta conversa que tivemos, Maria diz que não consegue trabalhar “porque as sequelas físicas e as dores crónicas causadas pela bala que trago no peito tornaram-se insuportáveis. Sinto que hoje em dia a bala se quer mexer. Custa-me muito estar sentada durante muito tempo e tenho de me deitar para aliviar. Tenho um enorme peso nas costelas, tendo três delas já totalmente danificadas por causa do projétil, o que me obriga a tomar remédios muito fortes e a usar cremes específicos para conseguir aguentar a dor. Já me custa imenso carregar um simples saco de 5kg. Consigo fazer as coisas de uma pessoa normal, mas demoro o dobro do tempo para tudo. Esta invalidez impede-me de exercer qualquer atividade profissional.”

– E por que razão a bala não foi extraída quando a levaram para o hospital?

– A bala nunca foi extraída porque os médicos diziam na altura que eu não passava dos 8 anos de idade. Depois, conforme eu ia sobrevivendo, iam-me dando sempre mais 2 anos de vida, e por aí fora. Era um risco enorme extrair a bala porque ela ficou alojada num sítio muito perigoso e corria o risco de se mover e ir diretamente ao coração. Por essa razão médica, decidiram não operar e ela permanece no meu corpo até hoje.

Na Provedoria de Justiça, Maria espera encontrar alento para uma luta contra o Estado que se adivinha difícil.

Correio da Manhã em 14 de outubro de 1987

Uma história que vamos acompanhar.

Para quem nunca conheceu o bairro Pedreira dos Húngaros, aqui fica uma reportagem da RTP de 1984: Bairro Negro.

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