O MOINHO DA “TIA MICAS MOLEIRA”

UM MOINHO COM JEITO DE MUSEU

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Moinho da Tia Micas

Corria à beira de Viseu uma ribeira a que alguns chamavam rio e ao qual deram o nome de Pavia. Chegava à cidade quase seco no Verão e os camponeses com hortas na Ribeira desviavam com açudes a água para as hortas, impedindo assim os moinhos que ficavam a jusante de moer o pão de milho de que a cidade carecia. Travaram-se de lutas, moleiros e camponeses, sem que entre eles dirimissem a questão.

Diz a lenda que os moleiros levaram suas queixas ao Tribunal do Rei e que, ao tempo, fizeram a promessa a S. João de que fariam anualmente uma romagem à sua Capela da Carreira, nas margens de Viseu, caso o Rei decidisse a seu favor. E o Rei, ouvidas as partes, decidiu a seu favor.

Nasceram, deste modo, as Cavalhadas do dia de São João, o dito Santo Precursor, como chamam ali, ao padroeiro. E o Moinho da Tia Micas Moleira, que é agora uma “casa de memória”, é o sítio certo para o contar desta história. E de todas as histórias da gente de Vildemoinhos.

Dos cesteiros, dos canastreiros, das tecedeiras das colchas e dos graciosos tapetes de lã. E dos seareiros que lavravam a terra para a semente crescer. E de tantas mais histórias de moleiros. E de padeiras. E de forneiros. E essa história linda do fazer do pão – a “broa” de milho, a broa trambela, que era o pão do dia-a-dia que as padeiras iam vender à praça de Viseu.

Histórias do peneirar do pão, do amassar da farinha, do lento levedar da massa na masseira, do aquecimento do forno com lenha de pinheiro, da broa a ganhar, dentro do forno, a cor do ouro e, depois, a encher de poesia o tabuleiro. E a festa que era cada refeição!… O velho Moinho da Tia Micas Moleira, à beirinha do rio, é agora o fiel contador destas histórias, da gente, do rio, da terra e do trabalho. É viva memória. Um património. Um museu.

O moinho da “Tia Micas Moleira”, antes de ser, como agora é, um contador de histórias, era um moinho como os outros. À beirinha do rio, dois “caboucos” onde a água saltava batida pelas penas do rodízio que girava e que através de um veio fazia girar a mó andadeira sobre o “pé”, que era a mó dormente.

O nome verdadeiro da Tia Micas Moleira era Maria de Jesus Ferreira (1915-1994). Nasceu em Órgens e casou em Vildemoinhos com o senhor Francisco Cândido. Ele era filho de moleiros. Ela não. Mas aprendeu. Ficou moleira.

Habitaram a casinha, que ficava por cima do moinho. Francisco Cândido trabalhava de canteiro. Saía de madrugada. Deixava a moega carregada com 200 kg de milho. Tia Micas vigiava o cantar das mós. Esperava os fregueses. Recebia o grão. E entregava a farinha. Como paga, tirava a “maquia”. Era séria, alegre e bondosa. E chamaram-na Tia Micas, Tia Micas Moleira, como se fosse da família. Nasceram os filhos. E, para eles adormecerem, as mós passavam a noite a cantar. À noite, o moleiro enchia a moega. Nem havia tempo para a mó descansar. E velavam. Não fosse a água faltar, não fosse o grão deixar de saltar.

Um dia, a Tia Micas Moleira ficou viúva. E permaneceu moleira. Servia os fregueses. Até que ficou cansada. Fechou as cales, parou o rodízio. Quedaram-se as mós. Os filhos da Tia Micas Moleira não quiseram ser moleiros. E já não havia fregueses nas aldeias. A farinha, à cidade, chegava de outros mercados.

Mas teve sorte, o moinho. Um genro da Tia Micas, o Firmino Toipa, que é um filho de adopção, aprendeu a arte, recuperou o moinho e fez dele um MUSEU.

Firmino Toipa
Escolas visitam o moinho-museu
O museu

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