O modo como o Irão é retratado nos média ocidentais é uma “encomenda” dos seus inimigos, EUA, Israel e as democracias europeias. A caracterização do regime teocrático, arcaico, medieval, é uma mentira seletiva para diabolizar o regime, esquecendo outros em tudo semelhantes e que fazem igualmente parte do problema que se vive no Médio Oriente.
É rizível a forma como o Irão é apresentado no discurso dominante, como se fosse ali a incubadora de todos os ovos de serpente do mundo. Como se a sua ação no Médio Oriente surgisse por capricho ideológico ou fanatismo religioso. Talvez esse discurso seja mais aplicável a Israel, mas isso nunca é dito.
O Irão não age no vazio. Age num tabuleiro onde a presença militar dos Estados Unidos se estende por todo o lado, onde alianças estratégicas com Israel e com as monarquias árabes moldam regimes sustentados por petrodólares e jogos bolsistas. O Irão não está “cercado” no sentido literal, mas está suficientemente pressionado para que qualquer leitura ingénua da sua política externa se torne inútil.
É neste contexto que Teerão investe numa estratégia que o Ocidente prefere reduzir a um rótulo: apoio a grupos armados terroristas. O Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza. Grupos que servem para o Irão projetar poder sem entrar em confronto direto com adversários militarmente superiores.
Chamar-lhe “terrorismo” não resolve o problema. Chamar-lhe “resistência” romantiza o que é, na prática, uma guerra assimétrica onde civis pagam sempre a fatura. Nenhuma das categorias, por si só, chega.
Mas há um facto de que ninguém fala: no vazio deixado pelas democracias europeias e pelos Estados Unidos, na defesa da Palestina, o Irão ocupou o espaço da ação. Talvez não por altruísmo, mas por oportunidade.
Enquanto Israel prossegue operações militares recorrentes em Gaza e expande colonatos na Cisjordânia, enquanto os Acordos de Oslo se tornaram um artefacto diplomático inconsequente, e enquanto a retórica humanitária substitui qualquer forma de pressão eficaz, o Irão faz o que os outros não fazem: interfere. O Irão percebeu que a causa palestiniana é uma oportunidade estratégica.
A narrativa de que Teerão “desestabiliza” a região é apenas meia-verdade. Como se a região fosse estável antes. Como se décadas de ocupação, bloqueio e ciclos de violência fossem um detalhe. Como se o problema começasse sempre no momento em que o Irão reage, e nunca no contexto que provoca essa reação.
O resultado é um discurso falacioso: de um lado, Estados que “se defendem”; do outro, atores que “provocam”. O resto é apagado: o duplo critério, a incapacidade, ou falta de vontade, do ocidente em enfrentar as causas estruturais do conflito israelo-palestiniano.
E é nesse vazio que o Irão cresce.



