“A DEMOCRACIA MATA” DIZ IBRAHIM TRAORÉ, PRESIDENTE DO BURKINA FASO

“A democracia mata.” Dito assim, parece provocação. Mas se enquadrarmos a frase, percebemos que Traoré está a mostrar-nos um espelho para olharmos para nós mesmo.

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As declarações foram proferidas em 2 de abril, numa entrevista transmitida pela televisão estatal do Burkina Faso, a Radiodiffusion Télévision du Burkina (RTB)

Ibrahim Traoré falava na televisão do seu país, um Estado em guerra, onde a democracia levada pelos franceses não trouxe paz, nem controlo, nem desenvolvimento, nem futuro.

vídeo – extracto de uma longa entrevista coletiva

É por isso que a frase é incómoda. Porque, vista por Traoré, a democracia tem um historial estranho. Na antiga Jugoslávia ou Líbia, veio com bombardeamentos da NATO e deixou Estados desfeitos. Na Síria, foi palavra de ordem antes de se tornar sinónimo de guerra por procuração. Em Gaza, convive com bombardeamentos e o genocídio de um povo.  No Líbano, não resiste às políticas expansionistas do sionismo israelita.

E se viajarmos para outras geografias, para a América Latina, as democracias foram frequentemente interrompidas quando incomodavam os EUA. É deste enquadramento geopolítico que fala Traoré.

O problema não será a democracia em si, mas o seu uso seletivo. Promove-se quando convém. Suspende-se quando atrapalha. Atraiçoa-se com facilidade. Ignora-se nos territórios ocupados. E, quando necessário, impõe-se. Com sanções. Ou com mísseis.

Por tudo isto, o Presidente do Burkina Faso diz que não quer democracia. Mas Traoré não está a vender filosofia política. Num país onde o Estado perdeu território para grupos armados, onde aldeias desaparecem do mapa e onde o quotidiano é insegurança crónica, eleições parecem um luxo exótico. E por isso, Traoré aproveitou a ocasião para adiar para data incerta a realização de novas eleições. Porque não há democracia sem Estado,
Enquanto denuncia a democracia, Traoré dissolve partidos, adia eleições e prolonga o seu poder. A crítica ao modelo serve para legitimar a sua suspensão. Por quanto tempo, não se sabe. Talvez para sempre.

A reação europeia será previsível: condenação, preocupação, retórica sobre valores. Mas há um problema. É difícil dar lições sobre democracia quando se aceita, ou apoia, a sua violação noutros contextos estratégicos. Esse duplo padrão já não passa despercebido. É ainda muito fresca a memória que temos sobre o que se passa em Gaza, no Irão, na Venezuela.

O mais relevante não é se Traoré tem razão. É se outros começam a falar como ele. Porque, no Sahel, e noutros lugares, a equação está a mudar: a legitimidade deixa de vir das urnas, passa a vir do controlo do território e da capacidade de impor ordem. Se isso se consolidar, adeus democracia.

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