A ESCRAVIDÃO NÃO FOI UM ACIDENTE DA HISTÓRIA, FOI UM NEGÓCIO. A DÍVIDA CONTINUA EM ABERTO

O que António Guterres disse na ONU desatou uma polémica semi adormecida: “Hoje prestamos homenagem às vítimas de um crime absolutamente estarrecedor. Milhões de pessoas arrancadas às suas famílias e comunidades em África. Traficadas através do Atlântico. E, caso sobrevivessem à travessia, escravizadas nas Américas. Milhões de pessoas mais nasceram já na escravidão, brutalmente exploradas pelo seu trabalho e privadas da sua humanidade básica. Honramos a sua resiliência silenciosa e os seus corajosos atos de resistência. Esta ordem global prevaleceu durante mais de 400 anos e continua a assombrar o nosso mundo ainda hoje." Nesta discussão, Portugal ABSTEVE-SE. O Governo de PORTUGAL não foi capaz de condenar a ESCRAVATURA. A direita portuguesa aplaudiu, na Guiné-Bissau põem-se os pontos nos is.

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Há textos que não apenas respondem a uma opinião: restabelecem a dignidade da verdade. Foi isso que fez Fernando Vaz, ao enfrentar, com coragem, lucidez e sentido de justiça, uma velha estratégia de negação que regressa ciclicamente sempre que se tenta falar de reparações históricas, de colonialismo, de racismo estrutural e da responsabilidade dos Estados que enriqueceram à custa da escravização de povos africanos.

A sua resposta merece ser saudada. Porque foi clara onde muitos preferem a ambiguidade. Porque foi moralmente firme onde muitos tentam relativizar o horror. E porque disse o que ainda hoje demasiados europeus recusam admitir: a escravatura transatlântica não foi apenas uma página triste da História, foi uma arquitetura internacional de pilhagem humana que financiou impérios, construiu fortunas, alimentou bancos, portos, companhias comerciais, indústrias e Estados modernos.

Não foi apenas escravidão. Foi desumanização organizada. Aqueles que hoje procuram esvaziar o debate sobre reparações recorrem quase sempre ao mesmo expediente: dizem que “a escravidão sempre existiu”, que “também houve escravos em África”, que “não se pode julgar o passado com os olhos de hoje”.

Mas esse argumento é intelectualmente fraudulento. Porque aquilo que a Europa organizou no Atlântico não foi apenas mais uma forma de dominação antiga. Foi uma máquina global de comércio humano, sustentada por leis, teologia, violência militar, finanças, seguro marítimo, classificação racial e uma narrativa de inferiorização do africano que haveria de contaminar séculos inteiros de relações internacionais.

Pela primeira vez em escala planetária, milhões de seres humanos foram  transformados em mercadoria racializada, reduzidos a peças, avaliados como ativos económicos, transportados como carga e explorados como força de trabalho descartável.

Isto não foi um desvio. Foi um modelo económico. A riqueza de uns nasceu da amputação histórica de outros. É aqui que o debate sobre reparações se torna incontornável.

Os países que hoje se apresentam como modelos de civilização, democracia, racionalidade económica e prosperidade esqueceram-se, convenientemente, de que uma parte decisiva do seu enriquecimento foi construída com base em captura e venda de africanos, trabalho forçado nas plantações e colónias, extração colonial de matérias-primas, destruição de estruturas políticas e sociais africanas, descapitalização humana de continentes inteiros.

A Europa moderna não nasceu apenas do Iluminismo, da Revolução Industrial ou do génio comercial. Nasceu também do porão dos navios negreiros. Nasceu também do sangue, do suor e da desumanização de milhões de africanos.

E é precisamente por isso que o argumento “isso aconteceu há muito tempo” é moralmente insustentável. Porque o tempo não apaga quando os efeitos permanecem vivos. A injustiça histórica continua a produzir injustiça presente.

As reparações não são um capricho ideológico. Não são um gesto de vitimização. Não são um favor. São, antes de mais, uma exigência de coerência histórica e de justiça internacional. Porque a linha entre escravidão, colonialismo, subdesenvolvimento, racismo estrutural, dependência económica e fragilidade institucional africana não é imaginária. É concreta. É estudável. É documentável. É visível.

Quando África continua a enfrentar desvantagens estruturais, dependência financeira, fragilidade infraestrutural e assimetrias brutais na ordem internacional, não estamos apenas perante “problemas internos”.

Estamos também perante as consequências prolongadas de séculos de pilhagem organizada. Quem lucrou com o crime histórico não pode hoje posar de neutro, de inocente ou de árbitro civilizacional. Não se pode invocar a participação africana para absolver o sistema europeu

Outro argumento recorrente dos negacionistas é lembrar que houve africanos envolvidos na captura e venda de escravos. Isso é historicamente verdadeiro em parte. Mas o uso político desse facto é profundamente desonesto. Porque uma coisa é reconhecer a existência de cumplicidades locais, guerras internas e intermediários africanos. Outra, completamente diferente, é fingir que isso elimina a responsabilidade de quem criou a procura, financiou o sistema, armou a logística, organizou a escala e acumulou os lucros.

Nenhum mercado de escravos atlântico teria existido naquela dimensão sem a engenharia económica, marítima, militar e jurídica.

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