Ana Paula Tavares é um dos nomes mais marcantes da literatura angolana, diria mesmo da literatura contemporânea em língua portuguesa, como confirma o reconhecimento maior que lhe foi atribuído com o Prémio Camões em 2025. A sua escrita faz pontes entre passados e futuros, entre vozes femininas e ancestrais , vozes que ela convoca de forma delicada e impactante.
Nascida no Lubango, em 1952, a sua infância foi desenhada pelo silêncio e pelas histórias sussurradas no interior de Angola, onde a tradição oral e a terra se inscrevem profundamente na memória de quem cresce embalada pelo sopro da História. Essa vivência ecoa nos seus versos, onde a paisagem não é apenas cenário, mas corpo vivo e simbólico:

O seu percurso académico conduziu-a à universidade no Lubango onde estudou História, e posteriormente a Lisboa, onde acabou o curso – e fez mestrado e doutoramento- aprofundou saberes e consolidou um olhar crítico sobre o legado colonial e o papel das mulheres africanas. A sua obra poética, marcada por uma linguagem sensível e pela resiliência, resgata vozes silenciadas e reivindica o espaço da mulher enquanto guardiã e transmissora da memória coletiva.
Na sua escrita, o corpo feminino, a natureza e os rituais ancestrais surgem frequentemente como elementos centrais. No poema “A Anona”, por exemplo, a descrição aparentemente simples de um fruto carrega uma enorme densidade simbólica e cultural.

Para Ana Paula Tavares, a poesia é um ato de resistência e de feminismo, onde o quotidiano se cruza com a força espiritual das suas ancestrais. Os seus versos evocam a ligação profunda à terra, ao feminino e às narrativas orais que sobreviveram ao tempo, celebrando a herança das mães e avós, mulheres que, mesmo diante do silêncio e da opressão, mantiveram viva a identidade:

Ler, aqui em Angola, Ana Paula Tavares é embarcar por entre rios e savanas, onde o passado sussurra e a esperança se reinventa. Na sua obra, o tempo ampara o esquecimento e as mulheres são fios invisíveis que seguram o mundo. Cada verso é um convite para escutar o murmúrio antigo das vozes que tecem a identidade de um povo.
Termino, com um verso de que muito gosto:





