Na sequência do que se escreveu sobre a mina de pedras semipreciosas em Belas – : https://duaslinhas.pt/2026/03/mina-de-pedras-preciosas-em-sintra/ – dir-se-á que o seu reconhecimento está relacionado com a febre amarela, que grassou em Portugal entre 1858 e 1861.
Esta epidemia foi tão terrível, que se chegou a pensar ser devida a uma conspiração para dar cabo dos filhos de D. Maria II e do nosso Rei-Artista, Dom Fernando von Sachsen Coburg Gotha, seu marido.
No caso do Príncipe Augusto de Leuchtenberg, há bastantes indícios que levam a suspeitar ter havido mesmo intenção de o matar; mas, quanto aos filhos de Dona Maria II e de D. Fernando, a causa das mortes deve ser procurada numa vulgar contaminação, quando não havia eficazes meios de prevenção.
Após a morte dos pais, subiu ao trono D. Pedro V, que casou com Dona Estefânia, uma rainha dedicada ao povo e de enorme boa vontade, deslocando-se aos hospitais de campanha onde se recolhiam os doentes com a epidemia, nomeadamente ao que foi erguido ao lado da Igreja Matriz, em Belas, ou em Torres Vedras, onde grassava outro surto epidémico.
Esta febre, contra a qual não havia remédio nenhum, destacava-se pela rapidez com que uma pessoa adoentada com febres altas morria, num espaço de poucos dias.
Foi assim a Rainha que, bem intencionada, levou a febre de Belas para o palácio em Lisboa, onde seus irmãos a quiseram ajudar e apanharam a febre. Seu marido não a podia ver sequer. A rainha morreu logo (1858), os irmãos um pouco mais tarde, e o rei em 1861.

Os mortos de Belas eram enterrados à noite, sem a presença de ninguém, na vala comum que se abriu para este efeito na Quinta da Chicola, uma das seis quintas que meu bisavô adquiriu.
Após os costumados dez anos de descanso, trasladou-se o que restava dos corpos para o novo cemitério de Belas, alguns duzentos metros acima da minha rua, a Estrada Nacional 117.
Através dos padres de Belas, conseguiu minha avó, que nascera aqui em 1885, adquirir umas dezenas destas pedras de jacinto, já sem os anéis, a maioria delas já facetadas.

A fim de galardoar quantos médicos e voluntários se distinguiram na luta contra a doença, mormente no apoio aos infectados, aprovou o município de Lisboa, em sessão de 17 de junho de 1858, a instituição de uma Medalha da Febre Amarela. Da autoria de Francisco de Borja Freire, exibia a inscrição “Lisboa Agradecida” e “À Devoção Humanitária”. Teve aprovação real, de modo que passou a ser considerada uma condecoração nacional.

Cunhada em prata, apresentava uma alegoria da cidade de Lisboa distribuindo uma coroa de louros. Cunhou-se um exemplar, em ouro, destinado a D. Pedro V, com o qual ele deixou escrito que queria ser sepultado.
(em colaboração com José d’Encarnação)




De: maria helena coelho
19 de março de 2026 16:52
Notícia muito interessante sobre os nefastos efeitos da febre amarela e sobre gestos de humanitarismo.