PERDER A DIGNIDADE É PERDER TUDO

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Porque votam os pobres à direita?, questionou – e bem- o Carlos Narciso, num texto escrito a poucos dias da segunda volta das presidenciais. A questão foi assertiva e justifica-se, uma vez que, não só em Portugal, como entre os emigrantes portugueses, verificou-se a tendência de alguns sectores mais desfavorecidos e com menor literacia, ter votado em André Ventura.

A iliteracia e a pobreza explicam, só, por si, esta tendência, ainda para mais quando o Chega tem como financiadores algumas das pessoas mais ricas do nosso País? O Carlos Narciso contribuiu para desmontar algumas destas dúvidas: “No atual combate ideológico, o racismo funciona como substituto da luta de classes. As pessoas deixaram de considerar a exploração económica de que são vítimas, aprenderam a encontrar novos bodes expiatórios. “Se eu trabalho e o salário não chega ao fim do mês, alguém me está a tirar alguma coisa.” Quem? O imigrante, o refugiado, o “subsidiodependente”, o “estrangeiro que vem para aqui viver à custa dos nossos impostos”. É falso, mas é emocionalmente convincente, porque dá um culpado visível. O capital é de difícil visualização. O imigrante é bastante visível. Este “racismo dos pobres” não cai do céu nem nasce espontaneamente da pobreza. É uma ideologia alimentada pelos media sensacionalistas, amplificada nas redes sociais, legitimada por discursos políticos que utilizam o velho truque de “com meia-verdade me enganas”.

Além das evidências e da desconstrução dos fundamentos para este voto, por parte das classes mais desfavorecidas, esta tendência, não podemos esquecer, tem raízes históricas, que não passam pela luta de classe, – até já se teorizou sobre o fim da luta de classes, ou o “fim da história” – um conceito desenvolvido pelos neoliberais, com o único objectivo de esconder o que está subjacente à tomada do poder pelos grupos e interesses económicos, mantendo a riqueza mundial concentrada em meia dúzia de pessoas, agravando o fosso entre ricos e pobres e simulando a existência do “elevador social,” que permitiria a classe média subir na “cadeia alimentar”.

Outra versão do mantra de André Ventura, é a criação “artificial” de o Chega ser o partido dos “descamisados” que se opõem às elites. Concepção amplamente derrotada pelos eleitores portugueses, ao darem a António José Seguro mais de três milhões e quinhentos mil votos, o que significa que o voto, no Presidente eleito, foi transversal a todos os sectores sociais.

Para se entender este “epifenómeno”, o votos das classes desfavorecidas em populistas, podemos ir até à Argentina, a de Juan Péron (líder do Partido Justicialista) e a de Javier Milei (líder do Partido Libertário), pois, quer um, quer outro, ancoraram a conquista do poder nos “descamisados” e, depois de chegar ao poder, abandonaram-nos ou usaram-nos a seu belo prazer. Quanto a Péron sabemos como acabou, quanto a Milei ainda não acabou porque Trump pagou cerca trinta mil milhões de dólares para evitar o colapso da economia Argentina, o que não está a impedir o agravamento da tensão social e o confronto com o poder político dos que se sentem enganados por Milei.

O mantra desta extrema-direita ou direita radical, é simples e constrói-se na iliteracia, no desânimo, na crise das democracias liberais e aponta os culpados, que são as elites corruptas, os emigrantes e a permissividade na luta contra o crime. De fora, ficam os grandes grupos económicos, que apoiam essa direita radical e as consequências do enorme fosso económico e social que existe, na generalidade dos países e em Portugal, o que provoca a pobreza e as diferenças sociais.

Como combater esse mantra? Não é fácil, mas passa, necessariamente, por uma mudança de políticos e de políticas que devolvam a esperança aos cidadãos, com respostas assertivas na saúde, na habitação, na educação, na inversão da disrupção a que se assiste na sociedade, com opções correctas no desenvolvimento económico e social. São propostas “redondas”, admito que sim, mas num tempo em que o Mundo está em convulsão, em que o Direito Internacional acabou, em que temos um “político transacional” a dirigir a maior potência do Mundo e a tentar transformá-la numa autocracia, em que a Europa continua a ser subserviente aos Estados Unidos, a opção só pode ser a de oferecer esperança, dando corpo a essa esperança com medidas e opções políticas que permitam aos cidadãos viver com dignidade. Dignidade é a pedra de toque para a sociedade destes tempos, em que se perderam valores, princípios e, fundamentalmente, se caminha para uma compressão dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Quando o homem perde a dignidade perde tudo e é esse o objectivo dos novos senhores do poder.

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