O DIA EM QUE SALAZAR QUASE VOOU

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O ano era 1937. A Confederação Geral do Trabalho (CGT), pela voz do seu destacado membro Emídio Santana, prometera num congresso em Espanha, no ano anterior, que tudo faria para se solidarizar com o povo do país vizinho, em guerra civil contra o fascismo. E se logo no início de 1937 fizera explodir várias bombas quer em ministérios portugueses, quer em instituições ligadas aos interesses de Franco, em Julho desse ano decidiu avançar para um atentado direto ao ditador.

António Granja, comunista, apresentou então o plano ideal para essa operação. Taxista, influente no movimento sindical do setor, aprendera pelos colegas que operários da canalização laboravam todas as noites nos esgotos da capital. E observou que havia um coletor de esgotos, precisamente, diante de uma residência na Barbosa du Bocage.

Todos os Domingos às 10h da manhã Salazar vinha àquele palacete assistir à missa numa capela privada. O seu carro vinha do Saldanha, pela Avenida da República, virava na Barbosa du Bocage, e parava diante da moradia. Um carro da polícia chegava sempre antes, e inspecionava o local, ficando de vigia enquanto durasse a cerimónia religiosa. Porque não, defendia Granja, colocar ali um engenho explosivo que livrasse Portugal do ditador?

Começaram os preparativos. Armindo José Estêvão, funcionário da companhia dos telefones, ficou encarregue de conceber a bomba e do seu sistema de detonação. Determinou que se colocasse uma bateria numa tampa de esgoto da 5 de Outubro, com um fio esticado até ao coletor, onde uma carga de pólvora seria alojada. Quando o carro do ditador ali chegasse, alguém acionaria o detonador e concretizaria o atentado.

Os cuidados foram extremos. O material foi preparado separadamente em três locais, uma parte no Benformoso, outra em Benfica, e uma terceira na Amadora. Só no dia se juntaram, já no local, todos os elementos necessários. Foram trazidos em três táxis, um conduzido por António Granja, e outros dois por motoristas chamados Damião e Virgílio. Chegaram à 5 de Outubro, encontraram dois operários que fingiam trabalhar nos esgotos, e estes assim que receberam o material iniciaram os preparativos. Um deles, Carlos Pimenta fica encarregue de acionar o detonador. 

Surge, porém, um contratempo: as medidas do coletor e da bomba não correspondiam. A bomba não passava pela manilha, e por isso havia o risco real de, caso deflagrasse, não se obter o êxito procurado. Os operacionais tiveram de debater entre si se avançavam para o atentado mesmo sem garantias de sucesso, ou se abortavam a missão. Houve acordo geral em que se tentasse na mesma.

Damião, o taxista, colocou-se num local onde tinha visibilidade tanto para o palacete da Barbosa du Bocage como para a tampa de esgoto onde Carlos Pimenta acionaria a explosão. Fingia ler o jornal, pediu a um engraxador que lhe tratasse dos sapatos, tentou agir com a naturalidade possível. Vendo chegar o carro do ditador, assim que este saiu para a rua e tal como tinha sido combinado, dobra o jornal, coloca-o debaixo do braço, e levanta-o no ar logo em seguida. Carlos Pimenta aciona o detonador, um estrondo ecoa na rua, e enquanto as pedras da calçada voam pelos ares, tudo ficou de repente submerso numa nuvem de fumo e de pó.

Por ter sido mal colocada, a bomba rebentou de tal forma que a sua explosão expandiu mais pelo interior da galeria do esgoto do que no seu exterior. A tal ponto que o impacto da deflagração fez saltar várias tampas nas ruas vizinhas, incluindo uma que atingiu, e feriu, o próprio Carlos Pimenta. Salazar, ileso, entrou na missa e fez sair em todos os jornais a notícia de que permanecera impassivo. Nesse dia o ditador não voou. Esteve quase.

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