Imagens de esculturas a que se convencionou dar o nome de «O Pensador» estiveram na base da reflexão que partilhámos aqui. Quiçá o tema seja, porém, inesgotável.
Em primeiro lugar, porque «O Desterrado» – escultura em mármore de Carrara, que constituiu, em Roma, no ano de 1872, a prova final do curso de Escultura de Soares dos Reis – também poderia incluir-se nesse tipo de imagens, ainda que, neste caso, porque inspirado no poema «As Tristezas do Desterro», de Alexandre Herculano, possa constituir a saudade o sentimento maior que dessa imagem promana e não uma reflexão geral sobre a vida humana.

Depois, se a escultura tradicional angolana está envolta, como vimos, em multissecular halo espiritual, a peça pré-histórica carece de uma explicação que se não deu, mormente devido à singularidade esquemática do seu perfil. Daí que Helena Ventura haja comentado:
«Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.
E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações».
E quase foi no mesmo sentido o que, por seu turno, Helena Coelho houve por bem escrever:
«A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».
Importa, pois, dar conta, desde logo, que a fotografia mostra a réplica oferecida, em Abril de 2012, pelo director do Museu Nacional de História da Roménia, de Bucareste, por ocasião da visita aí realizada por elementos do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa). A peça detém no museu o nº de inventário 15 906.

Trata-se de uma terracota e o que se apresentou foi apenas o elemento masculino de um casal – em inglês, « The Thinker and the Sitting Woman» – pertencente à chamada «Cultura Hamangia», datada do Neolítico Final, ou seja, aproximadamente de 5000 anos antes de Cristo. Mede 11,5 centímetros de alto e 7,5 de largura.
A descoberta ocorreu em 1956, perto da povoação romena de Cernavodă, região de Constanţa, na bacia hidrográfica do rio Danúbio.
Oportunas, sem dúvida, também pelo que ora acaba de se explanar, as palavras de Helena Coelho: «O Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais».




Muito grata por esta crónica, José d’Encarnação.
Sempre foi um pensador…e ao longo de milénios conseguiu reproduzir a ideia de que, no casal, era o único que pensava: “o pensador e a mulher sentada”, assim denominaram o achado do casal em terracota (nunca pensei, pela cor do material).
As mãos dela estão num só joelho, como se quisesse amparar um ventre muito bojudo que indicia prenhez (estarei a extrapolar…ou talvez não). Séculos e séculos depois ainda se considerava que essa, que é a mãe da humanidade, ou de todos os homens e mulheres que nascem, não pensava, só engravidava…
Depois deste desvio que me parece pertinente diante de tantos casos de mulheres, algumas notabilíssimas na arte de pensar, só me resta agradecer a informação sobre a proveniência destas manifestações de arte e dizer que foi uma oferta bem generosa do director de um Museu em Bucareste, na Roménia, a uma Associação de Amigos de outro Museu sediado em Lisboa, Portugal.
E continuo a dizer que não me importava de ter os pensadores em destaque, na minha sala.
Queria acrescentar, na segunda linha do terceiro parágrafo, “…de mulheres torturadas, algumas notabilíssimas…”.
De novo grata por um texto que nos faz PENSAR.
Grato estou eu, Lena, pelas tuas sábias considerações.