CRISTO, PELA LIBERDADE DA PALESTINA

O Natal integra o calendário litúrgico e popular da Igreja Católica e, de forma mais ampla, do cristianismo. Mas a sua importância real é geograficamente limitada. Fora do espaço cultural moldado pela influência cristã — Europa, Américas, algumas partes de África — a efeméride é irrelevante, quando não completamente ignorada. Em grande parte do mundo, o 25 de Dezembro não passa de um dia comum ou, no máximo, de um evento comercial importado.

2
1045

O primeiro paradoxo surge quando percebemos que nem sequer no território onde Cristo nasceu o Natal tem hoje qualquer impacto significativo na vida das pessoas. Na Palestina, e em particular em Belém, a cidade que a tradição identifica como o local do nascimento de Jesus, a celebração perdeu substância. Em contextos de profunda instabilidade política, de ocupação militar e de repressão sistemática, não há espaço para rituais simbólicos que pressupõem paz, comunhão ou esperança. Este ano, como nos anteriores, não haverá peregrinos em número relevante, nem turistas religiosos a visitar a gruta onde se diz que Maria deu à luz. A economia local, já fragilizada, está asfixiada. O quotidiano é dominado por postos de controlo, cercos, incursões militares e medo.

Entre os muitos paradoxos da Palestina, o lugar de Cristo é talvez um dos mais perturbadores. Os cristãos existentes na Palestina são palestinianos. São uma minoria, é certo, mas uma minoria histórica, enraizada naquele território há séculos. Não existem judeus cristãos enquanto grupo social relevante; existem palestinianos cristãos, submetidos à mesma ocupação, às mesmas restrições e à mesma violência que os seus compatriotas muçulmanos. Ainda assim, a figura de Cristo não surge como referência central da luta palestiniana pela autodeterminação e pela libertação nacional.

E, no entanto, Cristo foi uma figura profundamente política. Um opositor da ordem estabelecida, um crítico do poder imperial e das elites colaboracionistas do seu tempo. É plausível admitir que o movimento que se formou em seu redor não tivesse como objetivo inicial a fundação de uma nova religião, mas antes a organização de uma forma de resistência política, moral e talvez espiritual, contra uma ocupação estrangeira. Só assim se compreende que um pregador sem exército, sem linhagem real, sem poder material, tenha sido considerado suficientemente perigoso para justificar a tortura e a execução pública.

Naquele contexto histórico existiam inúmeras seitas, cultos e crenças de pequena escala, animistas, politeístas ou monoteístas, que coexistiam sem fricções nem grande relevância política. Nada obrigava o poder romano a reagir com tamanha brutalidade a mais um pregador errante. A morte de Cristo não se explica pela teologia; explica-se pela política. Foi eliminado porque representava uma ameaça à ordem vigente.

Hoje, a analogia impõe-se com desconfortável clareza. A capacidade de sofrimento e de resistência demonstrada pelos primeiros cristãos após o assassinato do seu líder tem semelhanças, em muitos aspetos, com o que se passa na Palestina contemporânea. Um povo submetido a uma ocupação militar prolongada, alvo de uma política de limpeza étnica e de destruição sistemática das suas condições de vida, enfrenta exércitos tecnologicamente superiores e potências estrangeiras. Tal como no passado, a violência é justificada em nome da segurança, da ordem e da civilização.

Neste contexto, falar de “Natais felizes” soa obsceno. O Natal, enquanto símbolo de nascimento, redenção e esperança, esbarra na realidade concreta de um território transformado num inferno a céu aberto. No lugar onde, segundo a tradição cristã, nasceu uma criança destinada a desafiar o poder, resta hoje a prova de que a história raramente recompensa os que resistem. Na Palestina, até a memória de Cristo vive sob ocupação.

2 COMENTÁRIOS

  1. Começo pelo final da sua estupenda crónica, Carlos Narciso: O Natal é uma construção simbólica feita de retalhos de memórias afectivas. Pretender mais do que isso, talvez seja exagerar.
    Se o associaram ao Cristianismo, é porque esta religião é também ela cerzida com ideias que surgiram do primeiro Concílio de Niceia presidido por Constantino I, onde os bispos lá reunidos decidiram da natureza divina deste Jesus para IMPOR uma religião (de estado) que unisse um tão vasto Império.
    Na verdade Jesus que dizem da Nazaré, um topónimo que ainda nem existia segundo Flávio Josefo, pregou uma doutrina social de equidade entre todos os povos e pessoas dentro deles, reforçando uma designação para marcar o que dizia como profeta e “formador” de prosélitos: o Reino do Céu, uma entidade acima de todos os que ostentavam caprichos de nacionalismos exacerbados e direitos de fazerem lucros escandalosos com a exploração dos mais fracos, que submetiam e castigavam. Como hoje.
    Claro que, opondo-se com convicção, Jesus, o “Cristo”, era um rebelde, alvo fácil para o Império Romano que castigava com a pena máxima da crucifixação. Mas atenção, foi primeiro acusado pelos seus…E aqui entra a polémica questão da Judeia e da Palestina.
    Vou passar ao lado, porque teria de pegar em detalhes como “este é o rei dos judeus” quando colocaram na cabeça de Jesus uma coroa de espinhos e ser a Judeia uma província romana governada por Pôncio Pilatos. É histórico, mas sabemos que a História está cheia de ficções.
    Depois negar toda a que é tecida à volta da fuga para o Egipto, sendo Belém a cidade de acolhimento. Já estive nessa gruta e em muitos outros locais onde dizem que…como forma de atrair turistas. Só me preocupa saber, fuga DESDE onde? Seria importante para avaliar a coerência da marcação de um destino para uma grávida quase a dar à luz e para o companheiro.
    Importa o seu texto, Carlos Narciso, que tem o grande mérito de nos obrigar a todas estas reflexões: a força do poder, ou a desigual capacidade de submissão de povos, de pessoas dentro de um estado, a justiça, a impunidade.
    Tudo igual, até a hipocrisia. Mas nada impede este actor social que é o homem de continuar a representar desde o desejo (às vezes pouco consciente) de um Natal cheio de maravilhas quando em tantos lugares do mundo, como na Palestina, se vive abaixo do mais profundo limiar de miséria.
    Dias tranquilos. Um abraço.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui