Sempre que passo junto a duas das estatuetas que tenho em casa, me interrogo: «Pensador? Porquê pensador?». Separaram-nas milénios; a intenção, porém, deverá ter sido a mesma. Qual?
Advém-me logo também a figura inconfundível do cantor brasileiro Gabriel, o Pensador, e, naturalmente, outra imagem admirável, a escultura «O Pensador», bronze saído do génio do francês Auguste Rodin (1840-1917).


E, ao abrirmos a página do Facebook, a pergunta lá está: «Em que estás a pensar?». Creio que, em princípio, o algoritmo quer controlar até os nossos pensamentos; contudo, a pergunta detém oportunidade premente. Não vale responder «Em nada», porque isso significaria – se verdade fosse – que não conseguíamos dominar a corrente dos nossos pensamentos. Ou, dizendo doutra forma: estávamos a esperdiçar a oportunidade de os dominar de forma efectiva e actuante. Que uma viagem de comboio, por exemplo, não pode servir apenas para nos embrenharmos no telemóvel: haverá um livro para ler ou, de modo especial, a possibilidade de pensarmos o que foi até aí o nosso dia e o que poderá ser a seguir. O domínio do pensamento reveste-se, de facto, de uma fecundidade incrível.
Uma das minhas estatuetas reproduz O Pensador de Angola. O Pensador é, vim a saber, uma das esculturas mais belas de origem tchokwe, que constitui hoje um referencial e um símbolo da cultura angolana. Pode ser uma mulher ou um homem anciãos. Simétrica, apresenta a face ligeiramente inclinada para baixo, a exprimir um subjetivismo intencional, pois, bem no sabemos (embora nem sempre disso estejamos conscientes), em Angola, os idosos gozam de um estatuto privilegiado, como detentores da sabedoria e da experiência. Como o tinham também na Antiguidade Clássica e nas filosofias do Extremo Oriente.
Atribui-se a Henrique Abranches a iniciativa de chamar à estátua “Pensador Tchokwe”, recordando a atrás citada escultura de Auguste Rodin e relacionando-a com as pequenas figuras, esculpidas, de madeira usadas no ritual da adivinhação dessa cultura quioca do Nordeste angolano: o ‘ministro’ guarda-as dentro do ngombo, o cesto de que se serve para a cerimónia, onde adivinho (mubiki) as põe com objetos diversos (ossos, sementes) para interpretar mensagens dos espíritos. Considera-se que as primeiras esculturas angolanas do pensador foram esculpidas nas oficinas do Museu do Dundo, ao final da década de 40 do século XX.


Não deixa de ser sintomática a circunstância de se haver encontrado também em horizontes pré-históricos uma figura que, na sua rudeza, mais não é do que a representação do Pensador: é a segunda imagem que guardo. Símbolo, portanto, do relevante papel que o pensamento assume na vida do Homem, reconhecido em todos os tempos.




Quase boa noite, José d’Encarnação.
Não me importava de ter uma peça semelhante que, atendendo a tão remota Era, é perfeita tanto na beleza do material usado (basalto, turmalina?) como no posicionamento de tronco e membros.
E é aqui, nesta semelhança entre mais e menos antigas, próximas e distantes, que o acto de pensar parece unir os homens de todas as gerações, considerando que os conhecimentos determinam pensamentos menos e (cada vez) mais profundos, mas sempre a mesma atitude movida pela curiosidade.
Não custa acreditar que os primeiros homens não se regiam apenas por instintos, mas também por uma linha de condução metódica que teria a ver com a identificação de correlações, memorizando variáveis e constâncias.
Que belo tema para reflectir olhando uma peça de arte!
Noite muito tranquila em aventuras contemplativas dos sentidos. Porque até o ócio aparente produz conhecimento por essa fecunda actividade do pensamento.
Abraço enorme.
Noite muito feliz.
Bem hajas, Lena, por tão preciosa reflexão.
De: maria helena coelho
20 de dezembro de 2025 16:32
A imagem pré-histórica do Pensador é impressionante. Poderia ser uma escultura bem representativa do século XXI. Realmente o Homem é um Pensador e um Criador desde tempos imemoriais.
Muito obrigada por me fazeres também pensar.