OSSOS A RESSUSCITAR

Uma arca de pedra que se mostra no Museu Municipal de Torres Vedras ostenta mui significativa legenda, que tem, no entanto, proporcionado polémica – ou não fôssemos, todos nós, atreitos a alimentar uma boa discussão por dá cá aquela palha.

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Pois, à partida, o letreiro mantém-se ainda bem gravado a preceito. O texto está em latim e o canteiro, na vontade de poupar espaço, não hesitou em recorrer aos habituais estratagemas de incluir umas letras nas outras: o caso do S dentro do O e do O dentro do D.

A arca, talhada em calcário oolítico, proveio da igreja de Santiago, uma das quatro matrizes de Torres Vedras. Tem no Museu o n.º de inventário MMLT.000355; mede 62 cm de altura por 78 cm de largura por 48 cm de profundidade.

Museu Municipal de Torres Vedras

O letreiro

Dizíamos que teria havido a intenção de poupar espaço; o certo é que a terceira linha dispunha de muito, que ficou em branco! Será, pois, mais uma espécie de tique, uma vontade de “fazer bonito”.

No fundo, há apenas duas palavras em abreviatura, sendo novissimo a mais evidente, abreviada, aliás, segundo os hábitos: os dois SS sugerem tratar-se do superlativo absoluto simples e o pequeno O sobre a linha indica o final da palavra que se subentende, como nós, hoje, tantas vezes fazemos em palavras do nosso cotidiano: Antº, Francº. Por outro lado, veja-se que o A de boamente serve de encosto à vizinha do lado: assim, temos o nexo DA no final e Æ na linha 1.

Apesar da perfeita geometria interlinear, não pode dizer-se ter sido perito o canteiro na paginação, justamente por não ter sabido ocupar a superfície toda que tinha disponível. Bastava-lhe ter deixado espaço entre os dois NN e gravado por extenso a palavra NOVISSIMO para poder incluir por inteiro, na última linha, a palavra ressurgenda.

Três pormenores não podem, contudo, deixar de referir-se, porque – esses, sim! – mostram que, afinal, não seria o canteiro tão inexperiente assim.

Primeiro: há entre os dois AA um ponto a meio da linha, para separar as palavras.

Segundo: usou de bem curioso estratagema para pôr a cedilha no C: gravou o C normalmente e, depois, pôs-lhe minúsculo-vertical quase no final da letra. Um achado, sem dúvida! E, neste caso, para tirar uma dúvida: a senhora chamava-se Aldonça! Veja-se, para confirmar, que o G, no fim da linha 2, é completamente diferente.

Terceiro: quase imperceptível, há, por cima do N de ANS um til, que é também  sinal de abreviatura: deve ler-se ANES.

A propósito, acrescentar-se-á que o E anterior está, como se disse, ligado ao A e faz, por isso, parte dessa palavra e não da seguinte. EANES  é leitura a excluir.

A ressurreição

Mas, afinal, que diz o letreiro latino?

Diz o seguinte, desdobrando-se as abreviaturas:

Traduzindo para português, sem restrita fidelidade à lapidar frase epigráfica: Ossos de Aldonça Anes a ressuscitar no último (dia).

Ressurgenda (na pedra, escrito só com um S) poder-se-ia ter traduzido mesmo por ‘ressurgenda’, forma verbal, o gerundivo de ‘ressurgir’, com o significado de  ‘ressuscitar’: ressurgendos, ‘que devem ressurgir’. Poderá, à primeira vista ser estranho, mas não é. Temos, por exemplo, palavras como instruendo, ‘o que se deve instruir’; nefando, ‘o que não se deve dizer’; educando, ‘o que se deve educar’.

Não é muito vulgar vir expressa em epitáfios funerários a crença na ressurreição do último dia, de acordo com o conceito expresso nas Sagradas Escrituras. Seja-nos, porém, lícito aludir a dois letreiros patentes numa sepultura do cemitério da Guia, em Cascais, só passíveis – diga-se desde já! – de cabalmente serem compreendidos pelos militantes das Testemunhas de Jeová, na medida em que são industriados a saberem citar passagens bíblicas de cor.

Nessa campa, lê-se o seguinte, a letras de ouro:

Alusão, pois, a duas passagens bíblicas:

«Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na Sua grande misericórdia nos regenerou pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos para uma esperança viva»  (1ª Carta de São Pedro, 1, 3).

«Tenho esperança em Deus de que há-de haver ressurreição» (Actos, 24, 15).

A crença, portanto, na ressurreição aqui bem vincada, ainda que de forma esotérica, só compreensível para quem está dentro do contexto.

(co-autoria: Isabel Luna)

2 COMENTÁRIOS

  1. O título é bem engenhoso e o texto muito interessante.
    Estive até ao final a lutar com o latim, claro…que sempre me deixou uma pedra no sapato.
    Achei muita graça aos artifícios do canteiro para inovar e fiquei a pensar se ele não deixaria o espaço livre na última linha à espera de mais informação da família, que afinal não teria vindo…
    Como a pedra no sapato continua a impedir-me de avançar (na tradução) jamais conseguiria fazê-la, a não ser por aproximação. Aquele AE, sendo o A final de palavra e o E inclinado mero elemento decorativo (ou não percebi?) ainda me baralham.
    Já a alusão, pelas Testemunhas de Jeová, a passagens da Bíblia, é mais fácil para toda a gente. Mesmo quem não as conheça de cor, pode ir à procura dos capítulos e versículos e ver do que tratam.
    Ressurreição é um tema fascinante quando entendido como metáfora. Falei disso em Um Homem Só referindo-me a Lázaro.
    Muito grata por mais este desafio. Abraço grande.

  2. Æ já aparece nos nossos computadores no rol dos símbolos: chama-se nexo esta junção de duas letras em que uma aproveita o traço da outra. Este Æ é deveras frequente, até porque em latim soava E. Bem hajas, Helena, pelo oportuno comentário.

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