O REGRESSO DAS CARAVELAS

Séculos de escravatura e colonização deixaram África, Ásia e América Latina com fronteiras artificiais, sociedades fragmentadas e economias saqueadas. As independências trouxeram, muitas vezes, guerras civis alimentadas pela Guerra Fria, não progresso. Hoje, quem foge da fome e da violência para a Europa encontra novos muros - não de pedra, mas de preconceito e rejeição. E a ironia repete-se: tal como no passado, a Europa continua a aproveitar-se dessa mão-de-obra, agora mal paga e invisível.

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Depois de séculos a explorar recursos de todo o tipo – começando pela sistematização da escravatura – a Europa fecha agora as portas a imigrantes que fogem da fome e das guerras nos mesmos territórios que um dia colonizou. O legado da escravatura e da colonização deixou para trás países fragilizados, incapazes de concretizar um desenvolvimento humano sustentável. As fronteiras que os colonos traçaram no mapa separaram sociedades, etnias e famílias, sem qualquer correspondência com as realidades sociais ou políticas locais.

Quando a maioria dessas colónias conquistou a independência, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, o que se seguiu não foi a liberdade plena, mas longos períodos marcados por guerras civis e conflitos internos. Muitas dessas lutas foram alimentadas pela Guerra Fria: de um lado, as antigas potências coloniais tentando preservar a sua influência contra os avanços da União Soviética e da China que tinham passado décadas a armar guerrilhas e movimentos de libertação.

A maioria destes países nunca teve a oportunidade de formar elites políticas e administrativas preparadas para promover o progresso, com raras e honrosas exceções. A instabilidade, a corrupção e a dependência externa tornaram-se marcas persistentes.

Hoje, quando homens e mulheres desses territórios chegam à Europa depois de sobreviverem a desertos e fronteiras hostis, depois de atravessarem mares a bordo de pequenos e frágeis barcos, encontram um muro invisível tão intransponível quanto qualquer barreira física. Não são vistos como vítimas de um processo histórico de exploração, mas como intrusos que ameaçam a estabilidade do continente. A narrativa dominante ignora que a sua fuga é consequência direta de séculos de saque e desestruturação.

Cinicamente, a política europeia concentra-se no “controlo das fronteiras” e na “segurança nacional”. E, ironicamente, muitos desses imigrantes chegam dispostos a desempenhar trabalhos essenciais, mal pagos e socialmente invisíveis, na agricultura, na construção, no lixo urbano, nos cuidados a idosos e crianças. Sem que saibam, são pequenas peças da velha “engrenagem” a funcionar: explorar ao máximo a mão-de-obra disponível, sem lhes conceder verdadeira cidadania ou igualdade de oportunidades.

Ontem, um pequeno barco de madeira encalhou numa praia perto de Vila do Bispo, no Algarve, com 38 pessoas oriundas do Norte de África. Sobreviveram a uma viagem cheia de perigos para, agora, serem expulsos e recambiados para o ponto de partida. Entre eles, há 3 crianças acompanhadas pelos progenitores, uma delas com apenas 1 ano de idade.

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