O “VERÃO QUENTE DE 1975”

EM TALAÍDE (CASCAIS)

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Perdido nos confins orientais do território de Cascais, encaixado entre os concelhos de Sintra e Oeiras, fica Talaíde, terra milenar onde se identificaram os mais antigos vestígios humanos do município cascalense.

A 20 de maio de 1975, identifiquei uma necrópole da Antiguidade Tardia, numa urbanização que estava ser feita entre os terrenos das Antas e a antiga povoação de Talaíde alcandorada entre a Ribeira das Parreiras e a Ribeira da Lage, um pouco mais longe para ocidente.

Necrópole de Talaíde, 1975

A escavação arqueológica do cemitério decorreu em colaboração com João Luís Cardoso, mais tarde professor catedrático da Universidade Aberta, desde os finais da Primavera até meados do Verão, num paupérrimo terreno agrícola. O terreno encontra-se virado a nascente, onde teria existido uma villa romana, já no concelho de Oeiras, tendo pelo meio a ribeira das Parreiras, a exemplo do que, conjuntamente com o Professor José d’Encarnação, encontrámos, mais tarde, na villa romana de Freiria: o mundo dos vivos separado do mundo dos mortos por uma linha de água.

Desenho de sepultura de Talaíde por João Amoedo, 1975

Decorria então, por todo o concelho, a instalação das comissões de moradores, que procuravam identificar os problemas existentes e resolvê-los.

Talaíde não fugia ao tema e tinha a sua Comissão de Moradores que lutava pela resolução dalgumas das deficiências da localidade, como a falta de água e as instalações da escola primária.

Pouco me recordo do que então por lá se passava naquele período, pois estávamos a trabalhar nos subúrbios da povoação, sem grande contacto com os moradores, mas sabíamos que existia fricção entre os elementos da Comissão e alguns moradores.

Recentemente, quando procurava imagens da escavação da necrópole, deparei-me com imagens que retratam os trabalhos que a Câmara Municipal estava a fazer numa habitação para a transformar em Escola Primária, onde se pode ler, numa faixa sobre a porta de entrada, a inscrição “Nova Escola do Povo”: bem eloquente imagem das preocupações da sociedade naquele tempo.

(NR: outros artigos do mesmo autor: Guilherme Cardoso, autor em Duas Linhas)

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