A equação é simples, embora absurda: o Estado português gasta, em média, 200 mil euros para formar cada médico em universidades públicas. O ensino é quase gratuito para os alunos, mas totalmente pago pelos contribuintes. E no fim, o que acontece? Muitos desses médicos partem para o estrangeiro, ou ficam por cá, mas a trabalhar no setor privado, onde os salários são mais altos, os horários mais leves e a pressão assistencial mais baixa.
O Estado, que investiu milhões na formação médica, fica de mãos a abanar. Não exige contrapartidas. Não pede sequer uns anos de devolução ao sistema público. O recurso a médicos tarefeiros pagos à hora, que recebem fortunas para tapar buracos, tem sido a “solução” aplicada. Mas estamos a falar de um serviço sem continuidade, sem vínculo e sem compromisso com os utentes. Em 2024, o Estado gastou de 230 milhões de euros assim, sem resolver problema nenhum de fundo. No verão, os poucos médicos do SNS vão de férias. As urgências fecham em catadupa.
SERVIÇO PÚBLICO, CONTRATO OBRIGATÓRIO
Outros países enfrentam dilemas semelhantes. Em França, Espanha ou Itália, também se vêem médicos a fugir do serviço público. Mas em alguns casos há mecanismos de contenção: bolsas com contrapartidas, incentivos para zonas carenciadas ou até — fora da Europa — vínculos obrigatórios por alguns anos após a formação. Em Portugal, nada disso. Aqui, formar um médico custa uma fortuna, e o retorno é zero. Pagam os de sempre: os contribuintes, que depois, quando precisam de um médico no centro de saúde ou numa urgência, recebem um aviso a dizer “encerrado por falta de profissionais”.
O mais razoável seria colocar esta questão logo no ato de inscrição na licenciatura. Se o ensino é público e altamente subsidiado, o aluno deveria saber à partida que isso implica um período mínimo de serviço no SNS, três, quatro, cinco anos. Quem não quiser, que pague a formação por inteiro ou procure uma universidade privada.
O princípio não é novo: o Estado financia, mas exige retribuição. É assim com bolsas de investigação, com cursos militares, com algumas bolsas de mérito. Porque tem de ser diferente na Medicina?
Portugal precisa de médicos. Mas precisa sobretudo de coragem política para assumir que o interesse público vem antes dos negócios privados.




Baixem a média da candidatura e obriguem quem quer formação pública que fique obrigado a servir 5 anos e paguem salários condizentes aos profissionais internos
Porque temos nós com os nossos impostos a dar formação gratuita e depois (darem o salto)