CÂNTARO QUE VAI À FONTE

UMA TRADIÇÃO QUE PERDEU POÉTICA NO FEMININO

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Uma velha figurinha de presépio de Machado de Castro guardada num Museu fica quase, tão só, como memória, como a mais poética evocação desse tempo de mulher que transporta à cabeça um cântaro de água para o lar. Velhas estampas e postais, raras fotografias constituem-se, também, como registo iconográfico de uma parcela importante da vida da mulher no quadro das sociedades camponesas do Norte do país.

Viseu. Silgueiros. Feira de S. Bartolomeu (c. 1950), Mulher com os cântaros comprados
Viseu. Silgueiros. Feira de S. Bartolomeu (c. 1950). Venda de cântaros

Que a água era elemento primordial na vida dos homens, bênção do céu derramada em chuva.

Ao homem competia tão só a sábia tarefa da sua distribuição nos termos da aldeia.

Dentro de casa a gestão da água era tarefa de mulher. Alimentação da família e dos animais, higiene do quotidiano, lavagem da casa para o dia de Páscoa, barrela ao findar do Verão, pucarinho de água dado a um mendigo – careciam de um abastecimento diário, jamais descuidado. E era então o caminho da fonte, fosse ela de chafurdo e antiga, fosse ela de bica sussurrante, as duas quase sempre numa praça da aldeia.

Esposa ou mãe, enchia os cântaros com pouca demora e lá vinha um cântaro à cabeça, outro na mão tantas vezes, para esse lugar certo da cantareira, o nome que era dado ao armário da cozinha que, ano a ano, se enfeitava, pela Páscoa, com os vistosos recortes de papel.

Outras vezes, a fonte enchia-se de mulheres. E, enquanto os cântaros enchiam, um a um, as mulheres queixavam-se da vida, trocavam as notícias dos cantos da aldeia, trocavam segredos que tinham prometido guardar.

E a fonte onde os cântaros enchiam e vazavam, esquecidos, tornou-se o lugar mítico da aldeia, escrito para sempre à volta de um gesto de mulher.

As raparigas vinham ao findar do dia, já posto o sol. Vinham dos campos os rapazes, nessa hora. E o cantar da fonte não deixava ouvir a mais ninguém as juras de amor. E a fonte onde os cântaros enchiam e vazavam, esquecidos, tornava-se o lugar mítico do romance. E sempre do amor.

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