CHEGA A CANTAR DE GALO

0
1197

André Ventura acabou de dizer que o Chega rompeu com o bipartidarismo, mas essa afirmação ignora importantes precedentes históricos da democracia portuguesa, como foi o caso do PRD (Partido Renovador Democrático).

O PRD, fundado em 1985 por inspiração do Presidente da República Ramalho Eanes, teve um impacto eleitoral surpreendente nas legislativas desse ano, conseguindo 17,9% dos votos e elegendo 45 deputados, o que o colocou à frente do CDS e atrás apenas do PS e do PSD, ou seja, foi de facto o terceiro maior partido parlamentar. Portanto, a quebra do bipartidarismo em Portugal não é inédita. O que se pode discutir é a durabilidade e o impacto estrutural que esses partidos conseguem manter ao longo do tempo. O PRD rapidamente entrou em declínio, perdendo representação nas eleições seguintes e acabou por desaparecer do mapa político. Por isso, caro André, ainda é cedo para afirmar que rompeu com o bipartidarismo de forma definitiva. A ascensão rápida de novos partidos nem sempre garante sustentabilidade a longo prazo.

Esta noite, nas televisões, Ventura está a dizer que “o sistema político mudou para sempre”, lembrando-se de que o Chega foi apregoado como anti-sistema, mas logo a seguir disse “não seremos os líderes do bota-abaixo”, como se já estivesse arrependido de ser anti-sistema. Esta ambivalência de André Ventura revela bem o equilíbrio difícil do oportunista, entre a necessidade de capitalizar o descontentamento e ao mesmo tempo afirmar-se como parte do jogo político institucional.

Esta tensão interna é típica dos partidos populistas quando crescem. Inicialmente, ganham força atacando o sistema, mas à medida que se tornam mais relevantes, precisam de mostrar capacidade de governar, negociar e comprometer-se, sob pena de ficarem isolados ou de perderem credibilidade junto do eleitorado menos atraído por revoluções.

VENTURA JÁ SE VÊ PRIMEIRO-MINISTRO

Há pouco, Ventura disse que “nós vamos vencer as próximas eleições legislativas”, frase que soa a ameaça para muitos democratas. Fez críticas aos jornalistas, quando foi levado ao colo por tantos. Hoje, escudado pelo voto, voltou a apontar o dedo à comunidade cigana, aos imigrantes, tudo isto num direto interminável nos vários canais de televisão portugueses que não resistem a estender-lhe o tapete. E assim se transforma uma declaração de vítória num comício.

O ataque renovado aos jornalistas, depois de anos de protagonismo mediático, muitas vezes acrítico, é mais um capítulo da velha estratégia populista: usar os meios para se promover e depois demonizá-los para se vitimizar e reforçar a ideia de que há uma elite contra o “povo verdadeiro”. Não é novo, mas continua a ser eficaz, sobretudo quando os próprios meios de comunicação cedem ao espetáculo.

O que aconteceu esta noite, com longos tempos de antena ao Chega em modo comício, é preocupante. Os media deixam-se instrumentalizar. Quando um direto de uma declaração de vitória se transforma num palco para discurso populista, racista e xenófobo, deixa de haver fronteira entre informação e propaganda.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui