Nestas eleições, o Chega reforçou o seu poder político. Para quem ainda acredita na democracia, na justiça social e na convivência entre diferentes, este resultado não pode ser encarado com normalidade. O mais alarmante não é apenas o crescimento eleitoral da extrema-direita, mas o facto de o fazermos olhos nos olhos com a mentira, como se ela fosse só mais uma opinião.
Assistimos ao naufrágio da esquerda no seu todo, mesmo se o Livre conseguiu um resultado satisfatório. A esquerda não soube navegar no mar de mentiras e meias-verdades com que a direita inundou o debate político. Não soube encontrar o tom certo para o confronto político cada vez mais radicalizado.
As mentiras
É mentira que os imigrantes sejam responsáveis por um aumento da criminalidade. A própria Polícia Judiciária o desmentiu, apontando que não há evidência estatística de que as comunidades imigrantes estejam associadas a maiores índices de criminalidade. Ainda assim, o Chega repetiu a acusação vezes sem conta — e colheu votos com isso.
É mentira que os imigrantes sobrecarreguem a Segurança Social. Pelo contrário: um relatório do Observatório das Migrações revela que os cidadãos estrangeiros residentes em Portugal contribuem anualmente com mais de 1,5 mil milhões de euros líquidos para a Segurança Social. São mais contribuintes do que beneficiários. Mas o Chega preferiu gritar “invasão”.
O mais perturbador neste cenário é que os problemas reais que afligem a população portuguesa não foram causados pelos imigrantes, mas por décadas de políticas neoliberais e pela submissão do Estado aos interesses do mercado – políticas promovidas essencialmente pela direita e toleradas, demasiadas vezes, pelo centro.
O aumento brutal das rendas e o colapso do acesso à habitação não foram obra de refugiados ou de minorias, mas da liberalização do arrendamento, do incentivo ao alojamento local e da especulação imobiliária.
A degradação do SNS não foi provocada por um excesso de utentes estrangeiros, mas pela ausência de investimento, pela precarização das carreiras e pela concorrência do setor privado que atrai médicos com salários mais altos, criando um vazio no serviço público.
A lentidão da justiça é um problema estrutural que ninguém teve coragem de pôr no centro da campanha eleitoral, talvez porque muitos beneficiam desse mesmo silêncio.
A fábrica da mentira
Ainda assim, o Chega conseguiu apresentar-se como “o partido dos descontentes”. Como? Com a ajuda de manipulação digital, incluindo o uso sistemático de contas falsas nas redes sociais, prática denunciada nos jornais. Em vez de ser punido, o Chega foi premiado nas urnas. E em vez de os media denunciarem esta estratégia como fraude política, muitos trataram-na como prova de “eficácia comunicacional”.
A identidade de quem?
Outro trunfo da extrema-direita é a ideia de “recuperar a identidade nacional”. Mas que identidade? Um país mestiço e plural como Portugal, com raízes culturais em África, Brasil, Índia, Timor e tantas outras partes, não tem uma identidade pura para recuperar. Nunca teve. A obsessão com “portugueses de verdade” revela mais sobre o medo de perder privilégios do que sobre amor ao país.
Agora, resta-nos ter coragem. O combate à extrema-direita não se faz apenas com moralismo. Será preciso ter uma comunicação firme que desmonte, uma a uma, as mentiras que alimentam o ódio. Os novos “grunhos” eleitos pelo Chega vão trazer muita matéria-prima, será preciso aproveitar as oportunidades. Sem dó nem piedade.




“Agora, resta-nos ter coragem. O combate à extrema-direita não se faz apenas com moralismo. Será preciso ter uma comunicação firme que desmonte, uma a uma, as mentiras que alimentam o ódio. Os novos “grunhos” eleitos pelo Chega vão trazer muita matéria-prima, será preciso aproveitar as oportunidades. Sem dó nem piedade.”!