PORTO VAI MATAR O MAIS ANTIGO GRUPO DE TEATRO

No ano em que o Teatro Universitário do Porto (TUP) comemora 75 anos e se aproximam os 50 anos da Revolução de Abril, o TUP está a viver dias difíceis.

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No dia 29 de Junho de 2017, a Universidade do Porto deu um passo decisivo e oficial para passar a declaração de óbito ao TUP, instituição fundada em 1948 e com atividade permanente desde então, sendo por isso o grupo teatral mais antigo da cidade do Porto.

Nesse dia o Diário da República publicou o anúncio de um concurso público da venda ou concessão do antigo colégio Almeida Garrett, localizado na Praça Coronel Pacheco, pela Universidade do Porto, por um preço base de 4,768 milhões de euros. De há muito que se sabia que a Reitoria da Universidade do Porto tinha uma visão exclusivamente economicista em relação a este tentador espaço que faz salivar qualquer empreendedor imobiliário. Também se sabe que a Reitoria se estava nas tintas para o facto de nesse espaço existir o mais antigo grupo de teatro da cidade.

“O procedimento visa a celebração de contrato de compra e venda do espaço denominado ‘ex-colégio Almeida Garrett’, ou a celebração do contrato referente à cedência em direito de superfície por um período máximo de 30 anos”, especifica o anúncio. Localizado na freguesia do centro histórico do Porto, o imóvel tem entrada pela praça Coronel Pacheco e está inserido num terreno com uma área total de 8.520 metros

“O TUP, habituado que está a saltar de um lado para o outro e a nunca ter uma casa mesmo sua, voltará certamente a fazer as malinhas. O TUP, para os que não sabem, tem património e tem gente lá dentro. Património e gente que não cabem numa ou duas salinhas. O TUP, para os que não sabem, voltou a fazer do antigo auditório da ACE Escola de Artes um auditório de teatro (obviamente com o acordo da ACE). Um auditório onde os senhores da reitoria nunca põem os pés. Um edifício onde os senhores da reitoria nunca põem os pés, habitado por um grupo de teatro universitário onde os senhores da reitoria nunca põem os pés, que faz teatro que os senhores da reitoria nunca vão ver, que acolhe a comunidade universitária e não só e que lhe dá a oportunidade de fazer um teatro de que os senhores da reitoria não querem mesmo saber”, desabafou na altura Nuno Matos, um “TUPniano” que se recusa a pactuar com o domínio do lucro sobre a arte e a cultura.

‘Enteado’ da Universidade do Porto, para quem o Teatro e toda a sua envolvência social e cultural é descartável, o Teatro Universitário do Porto (TUP) é o grupo de teatro mais antigo ainda em actividade do Porto e está, como o próprio nome indica, de alguma forma ligado à Universidade do Porto. No TUP nasceram, ou passaram, muitos dos nomes mais sonantes desta nobre arte.

O carácter não profissional e universitário do TUP é, porventura, a sua mais-valia. Há espaço para rasgar com as convenções – às vezes tão presas como raízes – que o panorama teatral da cidade do Porto ainda teima em acarinhar, há amor na vontade de fazer como o TUP sabe e quer fazer. Assim o deixem. Para além de encenações colectivas e da apresentação de textos dramáticos de autores inéditos em Portugal, gostam de criar a partir do que está lá dentro – da casa, deles, de quem está com eles. É, continua a ser, acima de tudo, uma questão de verdade e da verdade – porque o Teatro não tem de ser mentira.

Hoje, continuam a apostar na formação, porque querem ver o TUP crescer; querem gente interessante de ver, que encha a casa do que tem para dar, que goste de dar mesmo quando faz ferida – que fique. E que, como disse o Mestre José Rodrigues, escultor e antigo cenógrafo do TUP: «Alertar, não deixar ninguém esquecer. Lembrar, lembrar constantemente. E não perder a memória. Compete ao TUP ser uma espécie de despertador. Não agredir, despertar. Mostrar às pessoas que ser curioso é fundamental».

A importância do TUP no teatro português, em especial no teatro do Porto, não se mede, nunca se poderia medir, em estatísticas desapaixonadas, acontecimentos pontuais e recortes de jornais. Um grupo de teatro assim é parte do património cultural da cidade e do país. Devia ser amparado, acarinhado, se isto fosse um país a sério.

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