OS CABELOS DE BERENICE

A história que conto vem ao jeito das histórias que, contadas, sempre nos embalam. Era uma vez!... Poderia começar assim a velha história construída de realidade e fantasia.

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Era o século III antes de Cristo.

Reinava sobre as terras do Egipto Ptolomeu Evergeto, jovem rei de uma nobre dinastia. Sua mulher, Berenice, era a mais bela das rainhas que houvera.

Um dia, o rei partiu para uma campanha contra a Síria, ainda longe, mais ao Norte. Eram aos mil os marinheiros. Que eram ferozes os guerreiros do Norte, se contava.

Berenice, a jovem rainha, teme pelo seu rei e senhor.

Ela bem acredita na valentia dos soldados vindos das margens do Nilo, braços de cavadores que aprenderam a manejar a espada, marinheiros afeitos aos remos que empunham agora lanças compridas.

Berenice, tão bela e tão desprotegida, no palácio, confia aos deuses, mais do que aos soldados, a vida do seu rei. E ei-la que se dirige com as cortesãs mais leais e os soldados da guarda ao templo de Afrodite, a deusa que dourava o mar e o amor. O sacerdote maior estremece quando os cabelos de Berenice caem soltos sobre uma lâmina de ouro. Mas a rainha ergue o vulto, toma a lâmina com os cabelos cortados e depõe-na sobre o altar da deusa.

O rei voltou vitorioso da campanha. Trazia joias às mil para ofertar à rainha. Foram ao templo mas a cabeleira de Berenice já se não encontrava sobre a lâmina sagrada. E o sacerdote e astrónomo contou que a cabeleira da rainha se transformara em astro, nas sete estrelas de uma constelação nova que ele vira no céu.

Constelação Cabeleira de Berenice

Às vezes, entro nas capelinhas, que nós vemos perdidas pela serra ou em santuários maiores no cimo dos montes. Senhora da Saúde, Senhora do Castelo, Senhora da Guia, das Necessidades, Senhora… Senhora de todas as dores dos homens…

Há por lá tranças de donzelas que não voaram para o céu. Tranças de cabelos loiros, negros, castanhos. Fitas de seda de prender as tranças. Uma história, sempre, por detrás dos cabelos das donzelas. Eram quase sempre donzelas quem as oferecia. E era quase sempre uma história de amor que gerava aquela oferta, esse dom simbólico que aprendemos a chamar ex-voto.

Amor pela vida, sempre, subjazendo. A vida do irmão em perigo na guerra ou no mar. A vida do amado. A vida do amor. A vida do esposo quando já não é donzela ou a do filho prestes a nascer, o primeiro e ela, mulher é ainda jovem, farta trança caindo com uma esperança no chão sagrado da capela.

E eu lembro-me de Berenice, lá longe. No tempo. Lembro-me dos homens de sempre que têm de comum a precariedade da vida.

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