PEQUENA GRAVURA, GRANDE QUEBRA-CABEÇAS

Há mui estranhas letras exaradas numa cartela de, aproximadamente,  9 x 22 cm, letras de 4,5 cm. Granito de cor amarela, tom claro, grão médio e alguma erosão. Que quererão elas dizer?

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colagem fotográfica

A cartela encontra-se na parte interior, do lado direito, da moldura da porta que liga o interior do antigo Seminário da Guarda, edifício onde hoje se encontra instalado o Museu da Guarda, ao que seria um espaço exterior com  anexos de apoio à instituição como hortas, galinheiros e outros. Está sensivelmente a meia altura (cerca de 1,25 m), ou seja, à altura do olhar, no lado de dentro da moldura duma porta.

Museu da Guarda, antigo Seminário (fachada posterior) porta assinalada é a que tem a gravação numa pedra da moldura

Uma zona de passagem, portanto, ainda que possa haver dúvidas no que concerne a datas, porquanto – como amiúde acontece com este tipo de edifícios a que, ao longo dos tempos, são atribuídas funções diferentes – só a análise acurada das estruturas poderá permitir aventar evoluções arquitectónicas com alguma certeza.

Duas certezas será, no entanto, possível ter garantidamente: sendo zona de passagem, é letreiro para ser lido. Resta, portanto, discernir as letras e congeminar no seu significado. 

Uma interpretação do letreiro

O letreiro está entre duas linhas paralelas e, por isso, lhe damos, para simplificar, o nome de cartela. Trata-se de algo muito rudemente gravado, a ponteiro, dando quase a impressão de ter sido algo feito à socapa e, não fora a relativa regularidade das letras, ser-se-ia tentado a ver no escrito o resultado de uma atitude espontânea, como de quem quis deixar rasto da sua passagem ou perpetuar na pedra mensagem que, à primeira vista, o leigo jamais conseguiria entender.

Identificação de pessoa não parece viável, devido à existência das linhas delimitativas; identificação de um espaço também não se crê verosímil, atendendo ao seu carácter deveras atabalhoado. Terá sido algo que brotou, espontâneo, da iniciativa de alguém e cujo significado não poderia colidir com as características religiosas do sítio, porquanto se nos afigura ser essa uma das paredes ainda remanescente da edificação inicial do Seminário Episcopal, cuja construção se iniciou no século XVII (1601), conforme cartela existente na frontaria do edifício.

Contudo, a porta onde se encontra esta epígrafe pode ser uma das muitas portas e janelas que, ao longo dos séculos, foram sendo abertas ou reconstruídas. Aliás, até é de estranhar – num edifício com ambiente tão condicionado e mesmo insulador com o exterior (embora com elementos, hortas, galinheiros, etc.,  da estrutura educativa) – a existência de, pelo menos, nesta fachada  três portas para o exterior e ainda uma janela…

            Vamos, então, ao letreiro.

A primeira letra afigura-se-nos ser L: dois sulcos perpendiculares que, no entanto, não se tocam. A segunda será um J. A terceira: E, cuja barra intermédia foi gravada em oblíquo. A dificuldade maior reside na quarta letra: dá, à primeira vista, impressão de ser um L; sucede, todavia, que há, de seguida, três pontos mais ou menos no sentido vertical ainda que não alinhados e, em letreiros antigos, amiúde as palavras se separam com três pontos. Um deles daria, de facto, a impressão de marcar a barra inferior de um L. Optamos por ler I. A última letra não oferece dúvidas: é A, estando o ponto intermédio seguinte a indicar que deve ser lido como sigla.

Atendendo ao que atrás se declara, a hipótese de estarmos perante uma jaculatória, ou seja, uma pequena oração, qual suspiro d’alma, pode considerar-se viável:

Quiçá se não considere descabido que o J mais não seja que um D incompleto.

A expressão laus Dei ou Laus Deo não é desconhecida.  A Fraternidade Jesus Salvador de São Paulo, no Brasil, tem a frase Laus Dei como ‘carisma’, a sublinhar quanto o louvor de Deus é “o fim último do Homem”, atitude que, de resto. poderá vir na sequência da frase com que se inicia o cânone, a parte fundamental da missa católica: «É verdadeiramente digno e justo, racional e salutar dar-Vos graças, Senhor, em todo o lugar e sempre».

Laus Deo – que é a fórmula mais corrente – vai encontrar-se amiúde no fim de livros de índole religiosa (e não só!) ou mesmo na conclusão de uma cerimónia, consubstanciada na expressão muito comum «Louvado seja Deus!».

Em relação ao letreiro assim discreta e rudemente gravado na ombreira de vetusta porta na cidade da Guarda, aceitam-se, naturalmente, outras interpretações. Aliás, na abordagem inicial, ver aí uma data do século XVIII (17… ) foi aliciante, até porque o A final poderia ter o significado de A(no).  E assim estava tudo certo! Só que… estaria metade da data em numeração árabe e o demais em numeração romana, entendendo eventual LI  como 51?

Enfim, o mistério não temos a pretensão de o ter desvendado. Mas que aí está para nos dar volta à cabeça, isso está!…

(artigo em co-autoria com Dulce Helena Borges)

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