A VELHA ÁRVORE

MEMÓRIAS DA ALDEIA NATAL

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Lembro-me de uma velha árvore, velho chorão de uma Praça da minha aldeia natal. Era tão grande, tão grande, que só muitos abraços de meninos lhe apertavam o tronco. Era tão grande, tão grande que os meninos da aldeia podiam brincar todos no abrigo dos seus ramos. Os ramos vinham de muito alto e desciam como as lágrimas luminosas do fogo de artifício da festa da Padroeira ou como as mil fitas multicores atiradas das janelas nos cortejos de Verão. Desciam quase até ao chão.

Deste modo, os ramos definiam um espaço largo, circular e interior, quase secreto. E no centro, à volta do tronco, havia uns bancos de pedra já gastos pelo tempo, onde os velhos se sentavam, como se fosse para Conselho de tempos antigos, como se fosse para presidir à liturgia de um culto de mistérios. A casca da árvore confundindo-se com a cor grisalha do cabelo dos anciãos.

Ali perto, havia uma Fonte, da qual a veia de água jamais se esgotara, que os velhos se lembrassem. E havia a Capela de S. Sebastião. Estava quase sempre aberta, a Capela e o Mártir tinha um corpo que fazia dó, de tão ferido pelas setas de prata de onde parecia escorrer sangue.

À volta, erguiam-se as habitações da aldeia de loja e um piso, quase todas. E as casas continuavam pelos quatro caminhos da aldeia, irradiando do Terreiro. Para os lados do Poente, desciam as hortas, com muros velhos demarcando a paisagem.

Mas, um dia, arrancaram o chorão!

Não me recordo dos homens que tal fizeram. Nem do som do machado batendo. Nem das folhas mortas nem do tronco serrado e carregado em carro de bois lembrando esquife. Nem dos velhos me recordo. Decerto, alguns permaneceriam, ao longe, olhando esse lugar santo da memória.

Lembro-me da ferida aberta no chão do Terreiro, que assim lhe chamava a gente. A água enchera-a, abandonada, como seiva não mais necessária. E a árvore deixou, até hoje, um lugar vazio na Praça desprotegida.

É que o chorão era necessário no amplo Terreiro. Os velhos que, em moços, ali cantaram bailias podiam, agora, sentar-se à sombra, recordando. E os moços ali podiam dançar, em horas de festa ou de ócio, ao som de baladas de tempos novos.

Arrancaram o velho chorão e as gerações perderam um elo que as prendia e algo se perdeu para todos. Ficou desumanizada a Praça, porque o chorão fazia parte da família. Ficou sem equilíbrio a arquitectura das habitações, da Fonte, da Capela do Santo e dos muros baixos das hortas. A História ficou sendo menos verdadeira.

(NR: outros artigos do mesmo autor: Alberto Correia, autor em Duas Linhas)

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