Portugal vive hoje uma perigosa mutação no seu espaço democrático. A ascensão de André Ventura e do partido Chega não é obra do acaso nem simples produto de uma legítima insatisfação popular. É o resultado de uma engenharia ideológica venenosa, alimentada por uma profunda irresponsabilidade mediática e por uma complacência institucional que, a pretexto da liberdade de expressão, tem permitido a normalização da xenofobia, do racismo e da intolerância social.
Ventura não é apenas um oportunista político: é o rosto de uma agenda que tenta reverter os ganhos civilizacionais da revolução de Abril. É o avatar de uma direita raivosa, órfã do salazarismo, que vê na democracia pluralista uma ameaça aos seus instintos autoritários e na diversidade cultural uma ofensa à sua pretensa superioridade étnica.
A retórica antigitana, antiafricana, antimigrante e anti-pobres não difere, no essencial, dos discursos que abriram caminho para os fascismos do século XX. A diferença é que hoje Ventura tem acesso direto aos holofotes, entrevistas, debates e tempo de antena em televisão, rádio e plataformas digitais – não por mérito democrático, mas porque os media decidiram fabricá-lo como produto de audiência.
Sim, Ventura é um produto dos media. Em nome da “pluralidade”, os grandes canais de televisão abriram-lhe as portas sem o mínimo escrutínio ético. Normalizaram-lhe o ódio. Embelezaram-lhe a intolerância. Legitimaram-lhe a narrativa do “homem contra o sistema”, quando na verdade representa a mais perversa aliança entre ignorância, demagogia e nostalgia autoritária.
A direita tradicional, por sua vez, em vez de se levantar contra esta regressão histórica, ficou paralisada entre a conivência silenciosa e o cálculo eleitoralista. Finge que não ouve o galo cantar, mas já está a preparar o campo para negociar com quem ameaça os pilares da Constituição de 1976.
Chega. Chega de fingir que Ventura é apenas mais um político entre outros. Ele é uma ameaça real à democracia portuguesa, à coesão social e ao espírito inclusivo que Abril fez florescer. E se o povo português – branco, negro, cigano, migrante, trabalhador, jovem ou idoso – não reagir a tempo, estaremos a entregar a nossa liberdade às mãos de um incendiário que transforma o ódio em slogan e a mentira em método.
Abril é mais do que uma data: é um compromisso histórico com a justiça social, a dignidade humana e a fraternidade universal. Portugal não pode permitir que, cinquenta anos depois, um qualquer Ventura de turno venha rasgar o que tanto custou a conquistar.
E quanto aos media, se ainda lhes resta alguma réstia de responsabilidade democrática, que façam o que não fizeram até agora: desmontem a fraude. Recusem ser caixa de ressonância do ódio. E deixem de fabricar monstros em nome da audiência.



