ROMANOS EM ALBUFEIRA

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Esquecida quando tudo lá corre bem e correr bem não é ‘notícia’, Albufeira teve direito recente a ser notícia pelas ousadas liberdades juvenis a que os veraneantes fazem gala em se entregar, depois de longos meses de contenção nos países de origem.

Albufeira não é, porém, esse palco apenas: tem património cultural a ser apreciado; tem monumentos; tem uma história que vai muito para além da década de 60, em que conhecido músico britânico a guindou a lugar de excelência para o período estival.

Dessa história, no entanto, pouco se conhecia da época romana. O Algarve romano era Faro (antiga Ossonoba), era Tavira (a antiga Balsa), era Lagos (Lacobriga); eram as villae de Milreu (em Estoi), da Quinta de Marim (perto de Olhão) e do Cerro da Vila (em Vila Moura). Albufeira foi ficando na sombra até que, recentemente, criado o Museu de Arqueologia (ora renovado e digno de visita) e organizados os serviços de Arqueologia municipal, se começou a dar maior atenção ao território.

E, hoje, para além de uma zona de produção de garum (condimento à base de preparados de peixe deveras apreciado pelos Romanos), outros vestígios dão suporte à hipótese de ali se ter situado um aglomerado urbano a que se teria dado o nome de Baltum.

Ora foi exactamente para realçar tal antiguidade que o Município organizou o Festival Baltum, a fim de “celebrar e (re)descobrir Albufeira”.

Festival Baltum
Atividade de campo do Museu de Arqueologia de Albufeira com alunos de uma escola da região

Nesse âmbito se celebrou, na tarde do dia 24 de Julho, no Museu Municipal de Arqueologia, o colóquio subordinado ao tema “Albufeira Romana – Território Cultura e Memória”, em que esteve presente José Carlos Rolo, presidente do município.

Tive ocasião de aí falar do que as inscrições nos contavam acerca dos políticos, dos mecenas, dos servos e dos senhores da época romana; Luís Campos Paulo mostrou como, afinal, Albufeira tem vestígios arqueológicos romanos a merecerem destaque; e Idalina Nobre, que muito tem investigado sobre a história local, falou das preferências gastronómicas romanas.

E se  também nos agradou o vídeo sobre o património imaterial do concelho e se aplaudiu a ideia de mostrar, em reconstituição digital, como teria sido um dos ex- ibris da Albufeira, o castelo árabe de Paderne – sobremaneira deliciou a assistência o momento musical protagonizado por Gonçalo Pescada.

Gonçalo Pescada doutorou-se, com distinção e louvor, em Música e Musicologia, na Universidade de Évora, em 2014, universidade onde lecciona essa especialidade. Entre os múltiplos galardões com que já foi agraciado, saliente-se o 1º Prémio no Concurso Nacional de Acordeão em Alcobaça (1995), o 1º Prémio no Concurso Internacional de Acordeão “Citá di Montese” em Itália (2004). Venceu o Concurso de Interpretação do Estoril, inserido no Festival de Música  Estoril / Lisboa, de 2006. Actuou como solista, em Setembro de 2023, na 4ª edição do Festival ARTE(S)EMPALCO, realizada em Reguengos de Monsaraz, com o Quinteto de Cordas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras. E foi acarinhado agora, em Albufeira, com mui fartos e bem merecidos aplausos.

Começou por interpretar, em acordina, com suma maestria, uma magnífica rapsódia de fados, para, de seguida, com o seu bandoneón, nos levar ao mundo maravilhoso do tango; finalmente, brindou-nos, no seu multifuncional acordeão, com selecionados trechos musicais clássicos, a que não deixou de dar o seu toque interpretativo muito especial.

Gonçalo Pescada com o seu acordeão
acordina, instrumento musical
Bandonéon, instrumento musical

Certo, o acordeão foi patenteado em Viena de Áustria, a 6 de Maio de 1829, por Cyrill Demian, mas, ainda que nascido nesse centro europeu, bem depressa foi adoptado pelos portugueses e o Algarve detém, sem dúvida, muito apreciado elenco de acordeonistas de renome. Entre eles, o farense Gonçalo Pescada (completa 46 anos no próximo dia 10 de Agosto) merece, de facto, lugar do maior relevo e fazemos votos de que mais conhecido seja no País o seu enorme virtuosismo e invulgar talento de músico e de professor.

1 COMENTÁRIO

  1. Quando passava férias em Albufeira, já havia umas “atracções” turísticas ocasionais baseadas na medição de força bruta.
    Bastava o álcool entrar em acção e a gente levada na senda de Cliff Richard, gente essa que já tinha minado o espaço, logo se fazia anunciar nos bares aos fins-de-semana.
    Evitados esses lugares de concentração, nunca então tive o privilégio de ouvir falar dos vestígios de estabelecimento de romanos que, conforme este texto, justificam que ainda hoje se faça o festival Baltum, o nome dessa “urbe”.
    Nem o Museu de Arqueologia, creio que criado no fim da década de 90, quando eu já trocava Albufeira por Lagos, pela Praia da Dona Ana que fizeram o favor de estragar com mais construções sobre as arribas.
    A aldeia de Paderne ainda visitei. Percorri um caminho de cabras para ver o castelo, então em mau estado, mas parece que continua por preservar, uma das constantes num mundo em que tudo muda, menos o que devia mudar.
    Mas aprendi muito com este texto, desde logo que certas indústrias romanas ligadas ao pescado, também foram uma realidade em Albufeira. Por exemplo o garum (que por acaso estou a dever a um Amigo) também ali se “fabricava”, consumia e certamente exportava.
    Apendi ainda, e agora no domínio do património imaterial, que havia acordina e que temos um especialista premiado no uso desse instrumento.
    Assim, pelos patrimónios material e imaterial, Albufeira chama-nos para mais uma visita. Pode ser até que encontremos Sir Cliff Richard, um dos meus ídolos que tanto gostava de ouvir, embora não cantasse grande coisa. Mas produzirá bom vinho, não sei.
    Muito grata por este texto, José d’Encarnação. Trouxe-me recordações e a noção de que serei sempre uma aprendiza.

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