Engrácia Casal é uma das mestras dos saberes do linho, em Várzea de Calde, eu sei, que vi crescer o seu linho no linhar, vi o seu florir na primavera, ouvi os cantos quando o arrancaram e senti o ritmado bater das maças das mulheres que também cantavam amaciando com o canto, a jornada. E sentei-me à sua mesa quando a hora da merenda era chegada.

Engrácia Casal é também mestra na cozinha. Nas invenções do dia-a-dia. Nos dias de festa que a tradição marcou no calendário. Quando a mesa posta se arma com toalha branca com a mesma graça que as mordomas põem no armar de uma toalha no altar de S. Francisco, o padroeiro. Festa maior. Na Várzea.
E sobre a mesa a abonada padela ou a larga assadeira com o borrego assado no forno, o cheirinho bom dos temperos que impregnavam as matérias-primas nesse justo tempo marcado de amor, de saber e de segredos.
Carne tenrinha de anhos criados nas ervagens dos campos dos lavradores, cebola e alho partidos em pequeninos, quanto baste de sal, folhas de louro e um raminho de alecrim, colorau, vinho tinto e esse quanto baste de água, quase a cobrir e o forno já quente onde por duas horas lentas tudo se agasalha. E a batata da horta, aparada, tostando, lenta, como a carne. E um olhar vigilante, a espaços.
E depois, sobre a mesa, o barro negro de Ribolhos ou Molelos a manter a quentura, e os risos, canecas de vinho, a cativante ternura de mãe, de hospedeira, de amiga.
Foguetes na rua. Aqui e além, saindo das portas, um cheirinho que tem jeito de igual ao cheiro atrás sentido. Era dia de festa, aldeia fora.
Na Várzea nem toda a gente era lavrador. Havia os resineiros. E as mulheres que andavam com a lata da resina, “a colher”, como se dizia. E que também alugavam os braços para fiar. E havia jornaleiros que davam seu trabalho, dia-a-dia. Guardavam-se moedas, jorna apurada. Para as contas de ouro dos cordões das raparigas. E também para a festiva mesa do dia de S. Francisco. E havia sempre quem tivesse anho para vender.
Engrácia Casal contava-me isso ao pé do seu forno caseiro com louças armadas em prateleira, barros negros com desenhos frustes de antigos oleiros que deixaram de vir vendê-los no Adro. Onde também os trocavam por frutos da terra que na sua terra de montanha eram escassos.
E lá vinha uma dona requerer de abonada lavradeira que lhe deixasse colocar no forno, com o demais barro, um “padelinho”. E alegre se cumpria uma antiga solidariedade de vizinhos.
Cheiravam bem, por isso mesmo, nesse dia de S. Francisco, nos inícios de Outubro, as ruas todas da aldeia. E não era das passadeiras das flores que a esse tempo não havia.



