TRIBUTO ao MOISÉS ESPÍRITO SANTO

O meu querido Moisés foi para França porque discordava de Salazar e teve a coragem de lho dizer. Fundou colectividades nas comunidades de emigrantes portugueses, foi um animador cultural único. Os seus saberes e inteligência levaram-no à Sorbonne, o seu amor a Portugal fizeram-no ingressar na Universidade Nova de Lisboa.

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Este texto é também um Manifesto.

O mundo livre tal como o conhecemos está a ser atacado. Ideias e causas nobres herdeiras de um corpo ético judaico-cristão, um conjunto de princípios fundados na entreajuda e na solidariedade estão a ser substituídos por proclamações demagógicas em nome do povo.

A ressurreição de Salvadores e Messias é o resultado da falta de enraizamento e da não participação numa vida de grupo reforçada pela ausência de um sistema de valores e normas diferenciadas.

A tendência para a uniformidade e o conformismo levam as massas a agir em rebanho e a abdicar naturalmente do espírito crítico.

O branqueamento da História, o negacionismo do holocausto, voltou recentemente com a célebre equiparação do nazismo ao comunismo e a outros ismos.

O comunismo, Stalin, eliminou todos aqueles que discordaram dele. Como qualquer ditador sanguinário. No limite podia renegar-se a oposição e a vida seria poupada. Os judeus não tiveram essa sorte. Eram judeus. Equiparar um mal ao pior mal de todos é branquear, esquecer, deturpar a História.

A política nacional socialista alemã começou com o ódio ao outro,  identificando ciganos, homossexuais e doentes mentais. O passo seguinte foi a comunidade judaica apontada como causadora do sofrimento do povo. Os judeus foram mortos porque eram judeus e não podiam deixar de o ser, um genocídio diferente dos havidos até então.

Instalou-se uma indústria de aniquilação do ser humano assente na desumanização do judeu, no despojamento das características que poderiam gerar empatia. Não eram humanos e consequentemente não era errado matá-los. Aos dias de hoje a desumanização dos emigrantes tem a mesma filosofia redentora.

Decorre da ética de vida no espaço público sancionar o incitamento ao ódio, transmitir uma mensagem de tolerância para com o outro, proibir o insulto. Tentam as forças da reacção mostrar-nos esta realidade como um atentado à liberdade de expressão. É o branqueamento do racismo, da xenofobia e da intolerância sob o manto diáfano da Liberdade de Expressão. É o discurso dos populismos, daqueles que se consideram ungidos para falar em nome do povo. Sempre em seu nome.

Numa democracia não é o povo que importa nem o povo que conta. É a res publica, a causa pública, a causa do bem comum e esta pode ser diferente e até contrária ao povo. O populismo mistura ambas para fugir ao pensamento crítico.

A Europa, palco da Liberdade de Expressão, da Liberdade deve mostrar a sua História, distinguir as trevas do iluminismo, explicar a fundação dos Estados Unidos, a abertura do mundo pelos portugueses e espanhóis, a separação entre igreja e estado, a doxa substituída pelo conhecimento científico. A Europa enquanto santuário da Razão.

O branqueamento é assumirmos que uma ideia. apesar de vinda de um mau sítio até nem é má. O segundo passo é aceitarmos na democracia o gérmen do fascismo, convivermos e considerarmos normal que os arautos da pureza usem o jogo democrático para paulatinamente destruírem a res publica. O último passo é, sem termos consciência do facto, estarmos a defender as ideias lançadas pelos fascistas e que invariavelmente corrompem os laços da solidariedade, da boa vizinhança, da ajuda entre iguais. O outro, o diferente, é mau. E será presa fácil para deportações, negação de direitos básicos, perseguições.

Portugal tem mais portugueses a residir fora das suas fronteiras do que dentro de portas. Na miséria e pobreza salazarista dos anos 50 e 60 do século passado muitos compatriotas nossos procuraram o pão para a boca no estrangeiro em condições tão ou mais carenciadas do que aqueles que nos procuram.

Apoiar partidos extremistas e as suas ideias é renunciar e renegar a Portugal. Os maus revoltam todos aqueles que são Portugueses de bem. Ler Victor Hugo, Les miserables, é um passo na direcção certa.

(O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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