Património cultural bom para comer

Quando, em 1989, se criou, em Coimbra, o Curso de Especialização em Assuntos Culturais no Âmbito das Autarquias e, no seu âmbito, houve a cadeira de Património Cultural, a ideia de Património Gastronómico ainda era um tudo-nada ‘peregrina’, porque aos ‘comeres’ não se pensara em dar oficialmente a importância que hoje detêm.

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1844

De facto, fora na década de 1950 que Ancel Keys, fisiologista de Minnesota (Estados Unidos), tivera a ideia de estudar os hábitos alimentares de sete regiões – o célebre Seven Countries Study – a fim de verificar se havia relação entre a ocorrência de doenças cardiovasculares e o tipo de alimentação dominante. E concluiu que os alimentos preferidos em Creta, na Grécia e no Sul da Itália consubstanciavam uma boa escolha. Daí o aparecimento da designação «dieta mediterrânica». No entanto, só pelos  anos 60 essa ‘dieta’ começou a ser mais conhecida e paulatinamente adoptada e apenas em dezembro de 2013, a UNESCO a definiu como património cultural imaterial da humanidade.

Entretanto, introduzira Carlo Petrini, em 1986, o conceito do Slow Food – «comer devagar», no sentido de mais se apreciar a comida e melhorar a qualidade do que se come.

Ou seja, voltando atrás, em 1989, o conceito de Património Gastronómico ainda não era corrente; e basta recordar que só em 26-7-2000, o Conselho de Ministros de Portugal aprovou a resolução nº 96/2000, que «considera a gastronomia portuguesa como um bem imaterial integrante do património cultural de Portugal».

É, pois, na sequência desse movimento que as localidades começam a olhar para si e a reivindicar-se como «capitais»:

– Vila Nova de Poiares constitui, em 2001, a Confraria da Chanfana e possui o registo da marca Capital Universal da Chanfana.

– Miranda do Corvo cria, em 2003, a Real Confraria da Cabra Velha e regista, em 2005, a marca Capital da Chanfana.

– Alvaiázere arroga-se, em 2003, como Capital do Chícharo.

– Penacova, Penafiel e Entre-os-Rios rivalizam entre si na criação de confrarias da Lampreia.

– No Algarve, Santa Luzia, junto a Tavira, inaugurou, em Setembro de 2022, a escultura representativa da vila como “Capital do Polvo”.

– Resende e Fundão rivalizam como capitais da cereja.

– Arroga-se Sever do Vouga de ser a Capital do Mirtilo…

A maçã

O rol não tem fim, de facto, até porque muitos se recordam de pratos típicos que vão comer a determinadas terras de Portugal:

– parava-se no Bigodes, na Nacional 1, na Benedita, e também em Vendas Novas, para uma bifana

– parava-se à saída de Pombal, para um arroz de tomate a acompanhar pastéis de bacalhau;

– parava-se, invariavelmente, em Canal Caveira, quando se ia para Sul, a fim de saborear o cozido à portuguesa;

– vai-se a Monsaraz para um ensopado de borrego e a Almeirim para a sopa da pedra…

Quanto a frutas, já se falou na cereja, mas a laranja do Algarve bate todas e reza a tradição que, desde que se instalaram em Alcobaça, no século XII, os monges de Cister deram em cultivar macieiras, sendo hoje as maçãs do Oeste as mais apetecidas e proclamadas.

Ora, foi por isso que pasmei ao saber Armamar «capital da maçã de montanha», assim denominada pelo facto de ser cultivada a mais de 800 metros de altitude.

«A paisagem sul do município», lê-se na página camarária, «é marcada por extensos pomares de macieiras que dão a esta zona próxima do Douro um contraste único. O solo xistoso que predomina a norte dá lugar ao granito». Há «pomares de macieiras a perder de vista, que atingem grande beleza na época da floração e uma mescla de aromas inebriantes, quando os frutos estão maduros». Com cerca de 1400 ha de área plantada, a produção média anual é de 50 mil toneladas, nas variedades Gala, Fuji, Jeromine e Golden.

Dispõem os produtores de vastas câmaras frigoríficas «onde se preserva a qualidade de toneladas de maçãs até à altura em que são enviadas para o mercado» e, como as condições atmosféricas são essenciais para uma boa colheita, os fruticultores instalaram 28 canhões antigranizo, que entraram em funcionamento no final de 2021 e por quatro vezes já “defenderam” os pomares do granizo e da trovoada.

Acrescente-se que o pé da maçã é cortado à tesoura, para que a fruta não se danifique e «cada maçã é colocada num berço aveludado em forma de cesta de fundo falso».

Neste mês de Junho ainda se não pôde aspirar o perfume de que a publicidade fala; mas a fartura promissora dos cachos constitui, sem dúvida, um bom augúrio e faz, desde logo, crescer água na boca, imaginando o delicioso sabor…

1 COMENTÁRIO

  1. De: Jorge de Alarcão
    Enviada: 25 de junho de 2024 09:59
    E a Maçã Bravo de Esmolfe? e a Pera Rocha?

    Respondo:
    Pois que tem razão. Haveria de ter falado também na pera rocha – cuja ‘capital’ é o Bombarral – e no bravo de Esmolfe, com que nos deliciamos aqui em casa, nomeadamente quando começa a encarquilhar…
    Bem haja pelo eco.

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