Conhecer Gisela Miravent

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Saiu de Lisboa para a Tapada do Mocho, em Paço de Arcos, e essa residência determinou o testemunho publicado, a 2 de Março último, no nosso prezado colega local A Voz de Paço d’Arcos¸ de que, com a devida vénia, se transcreve o final:

«Quando vejo perdizes e coelhos a saltarem-me ao caminho, acende-se uma luz de esperança – a vida original resiste e está disposta a partilhar o espaço connosco. Seremos suficientemente inteligentes para aproveitar a oportunidade e o ensinamento? Este descampado fabuloso, atravessado por ribeira e vegetação exuberante, é particular e tem aprovado um projeto de construção de consulta impossível por quem vai tentando saber o que ao lado de suas casas está para acontecer. Oxalá a ganância não ameace os derradeiros equilíbrios e possamos, num futuro ao virar da esquina, não só levar filhos e netos a sentar-se junto da água da ribeira reconduzida ao leito, num parque verde naturalizado, como, com engenho, arte e paciência, ouvir de volta o piu do mocho que deu nome à Tapada».

Uma conversa

Conversámos na tarde de domingo, 25, na galeria da Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana, em Cascais, onde Gisela expõe «Povoamento disperso».  Estive acompanhado por Simoneta da Luz Afonso e seu marido, uma coincidência feliz, porque há tempos que não abraçava estes meus amigos dos tempos da nossa formação museológica, nos primórdios da década de 70, e porque assim pudemos sentir de perto a emoção que ainda das obras expostas se transmite à autora e ela nos transmite a nós. Regalámo-nos.

Povoamento disperso, Galeria da Biblioteca Municipal de S.Domingos de Rana

Tinha, por isso, de querer saber mais. E aí vai o que logrei saber.

– Mantém-se na Comunicação Social, área em que se formou; detêm os seus escritos um conteúdo pedagógico militante. Que mensagem fundamental gostaria de passar?

Trabalho atualmente no Museu Bordalo Pinheiro, onde sou adjunta de direção. Entrei neste equipamento em 2016 e fui, durante cerca de três anos, responsável pela sua Comunicação. A Comunicação está hoje fortemente alavancada nas redes sociais, tudo ou quase tudo se comunica através delas e de newsletters – mesmo os anúncios, anteriormente impressos, mudaram-se para estes espaços virtuais. Exige-se criatividade e um trabalho de divulgação incessante e original para conseguir que o público chegue até nós e crie hábitos de estar e voltar. Vivemos imersos em informação, é um desafio diário manter qualidade e oferecer diferente. Pessoalmente, aprecio um trabalho de escrita que possa ser mais refletido, aprofundado, diferente do “post” diário, do “tweet”, do “insta”, do tik-tok das gerações mais novas. Imagino com dificuldade ater-me a estes meios de rapidez e ferocidade pela atenção de quem rola os dedos pelo telemóvel. Felizmente, apesar das minhas funções serem de apoio à direção do Museu e à sua gestão corrente, consegui não me desligar totalmente do trabalho de edição. Por exemplo, coordeno, com o João Alpuim, diretor do Museu, a coleção Cadernos de Bordalo, seguramente um dos aspectos mais refrescantes e compensadores do meu trabalho quotidiano no Museu.

– Abandonou a cidade, refugiou-se no campo que ainda resiste, aspira a que nunca se impeça o mocho de vir piar na Tapada a que deu o nome. A que lhe sabem as suas alfaces?

De facto, cheguei a arriscar vida familiar na zona do Cartaxo/Santarém quando os meus dois filhos mais velhos eram ainda crianças pequenas. É possível ter aí uma excepcional qualidade de vida, em termos de silêncio, ar limpo, tempo, entrosamento e respeito pela natureza e animais, também para com os últimos velhos cujas vidas foram quase sempre tão duras que continuam a alimentar, em sonhos, a fuga para um mundo melhor. Por outro lado, este “campo”, que dista meros 70 kms de Lisboa, tem vindo sempre a deprimir: as aldeias estão vazias, não há transportes públicos, qualquer atividade das crianças exige deslocações automóveis e é impossível que sejam autónomos. Verifico que, nos anos mais recentes, muitas casas foram compradas por gente da cidade e estrangeiros, mas não é suficiente para dar vida às localidades. Há uma tremenda falta de planeamento a este nível e, sem transportes, é impossível estabelecer “commutings” viáveis, empregabilidade duradoira, raízes por parte dos mais novos. Aliás, não há trabalho. Tive de vender a minha linda casinha no campo com o seu jardim de rosas, couves portuguesas e limoeiro ao sol. Vivo, desde 2010, no concelho de Oeiras, embora tenha crescido em Carcavelos. Sou uma sortuda por ter conseguido, à beira dos 50, comprar uma pequena casinha de cooperativa com miniquintal e rodeada de árvores e canto de pássaros. Foi uma salvação!

– Aliás, fez para as crianças, em colaboração com sua avó, Maria de Lurdes Modesto, um livro de receitas. Que propósito norteou a equipa?

Da minha querida e saudosa Maria de Lourdes Modesto sou neta de coração, não de facto. Tornámo-nos muito amigas a partir da colaboração na revista Atlantis, a revista de bordo da TAP de que fui coordenadora durante aproximadamente dez anos, enquanto foi dirigida pela minha não menos querida amiga Simonetta Luz Afonso. Com a Avó Milu, forjávamos as histórias todas: unia-nos um humor e imaginação muito parecidos. É a única pessoa com quem consegui, até hoje, escrever a meias – podia começar uma frase e ela acabava, e vice-versa, e ninguém diria que éramos duas. Tínhamos uma ligação muito forte, muito sentida, falávamos com o olhar. Ensinou-me imenso, imenso. Com a graça e generosidade que a caracterizavam. E quis sempre aprender, também, porque era uma mulher excepcionalmente inteligente e arguta. Podia ter sido uma notável primeira-ministro, tenho a certeza. Já não se trabalha com a qualidade que ela tinha e exigia! A Minha Primeira Cozinha Tradicional Portuguesa fez-se para celebrar os 30 anos dessa obra maior e irrepetível que é a Cozinha Tradicional Portuguesa. Avó e neta partem numa viagem por Portugal, à descoberta das regiões e da sua gastronomia. Os desenhos do Bernardo Carvalho são dos mais belos que lhe conheço. Foi um trabalho feito com amor e isso nota-se. 

– Filha duma historiadora de Arte, neta de uma senhora que todos admirámos e admiramos e que punha arte nas receitas tradicionais… foram antecedentes para se dedicar às Artes? Dedicação exclusiva ou de puro gozo espiritual?

Quero tanto essa dedicação exclusiva! Teria tanto para dar. Conhece algum mecenas disposto a ajudar-me? Não tanto gozo espiritual, há mesmo uma pulsão irredutível para desenhar e muitas horas de trabalho, serões e férias dedicados a este trabalho.

– A ida para um museu com as características do de Bordalo Pinheiro foi um desejo concretizado, suponho. Como adjunta de direção, que programas tem entre mãos? Outros haverá, porém, que gostaria de poder concretizar.

O Museu Bordalo Pinheiro é uma festa. Somos uma equipa pequena, quinze pessoas, mas o ambiente de trabalho é invulgarmente alegre e produtivo. Orgulhamo-nos muito da nossa programação e das nossas loucuras – aquelas exposições e numerosos eventos que não estavam programados e acontecem. E correm bem! Temos um serviço educativo de excelência, acolhendo escolas a um ritmo frenético, mas também celebrando parcerias com instituições e comunidade. Claro que para o serviço educativo funcionar, contamos com o trabalho dos investigadores, da documentação, da conservação, da comunicação. Uma designer de excelência e uma administrativa tão despachada quanto bem disposta. Sem esquecer a dedicada equipa de acolhimento e bilheteira. Nada se faz sem uma boa equipa entrosada. E sem lautas gargalhadas.

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