Os professores são importantes

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Merlí era uma série de televisão, que passou na RTP2, sobre um professor de Filosofia que usava métodos pouco ortodoxos para levar os alunos a interessarem-se pelas aulas e a pensarem livremente. Teve conflitos com a direcção da escola, com os pais e até com os alunos. Mas ajudou-os como ninguém e foi professor, pai e conselheiro. Curiosamente, no último episódio, alguns anos depois da sua morte, um dos alunos é professor de Filosofia e transmite os ensinamentos de Merlí. Todos o recordam como uma das pessoas mais importantes das suas vidas.

Esta série, fez-me lembrar a professora Sofia Falcão, a Merlí da minha vida. Dava aulas de Português no Liceu que frequentei antes do 25 de Abril. Sendo eu colaboradora do jornal do Liceu, um dia escrevi um texto que o Reitor (director do jornal) não deixou publicar.

Em conversa com a professora, queixei-me. E ela: “Se tu queres ser jornalista tens de te habituar. Dá a volta ao texto e diz a mesma coisa”. Assim fiz e o texto foi publicado. Mas aquela frase “dá a volta ao texto” da minha professora tenho-a na cabeça até hoje e mudou a minha vida.

Há uns anos pediram-me para escrever um texto (desta vez sem censuras) para o jornal da agora Escola Secundária. Escrevi sobre esta professora. Uma amiga nossa providenciou o reencontro e Sofia Falcão disse-me: “Nunca pensei ter tido essa importância na tua vida”. A mesma amiga contou-me, mais recentemente, que num encontro de antigos alunos vários afirmaram que o mesmo sucedeu com eles.

De repente, leio que “ao longo da última década, o Conselho Nacional da Educação (CNE) tem vindo a alertar, em relatórios e recomendações, para o envelhecimento do corpo docente e consequente aposentação, e para a necessidade da sua renovação”. E mais se acrescenta que “interessa também encontrar soluções que permitam reverter a situação criada, considerando que ainda há professores que não obtêm colocação, que a atractividade da profissão é baixa e que o número dos que vão concluir os mestrados que conferem habilitação para a docência, nos próximos anos, poderá não ser suficiente para suprir as necessidades”.

Que os professores ganham pouco é uma verdade, que são tantas vezes maltratados por alunos que não tiveram educação em casa é outra verdade. E será que o ensino de agora continua a dar espaço para os Merlís e Sofias Falcão da vida dos estudantes?

Neste contexto, percebo a fuga em massa a esta profissão de suprema importância. Trata-se de um problema social, de uma sociedade que pouco tem valorizado a transmissão do conhecimento. E isso é muito grave!

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