A aluna TAP e o professor

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Gerir um voo em terra, na placa, regra geral confundida com a pista, foi um dos mais aliciantes trabalhos que tive. Tem de se falar com toda a gente, a começar pelos operadores de rampa, que descarregam e carregam um avião em 50 minutos. É obra! Poderão ter apenas o ensino básico mas são um poço de sabedoria na aviação.

Ter um walkie talkie na mão, estar em contacto com toda a gente que trabalha para o voo, é pura adrenalina. E ainda conferir os passageiros com o chefe de cabine, por fim o comandante, a quem se entrega a load sheet, que não pode ter erros, simplesmente não pode. A seguir, dar ordem para fechar as portas do avião, entregá-lo ao técnico que o levará à pista, é uma vitória descomunal. Não se atrasam voos. Um deadline é um deadline.

Na altura, estava no 1º ano de Comunicação Social na Nova e, não de uma forma brilhante mas suficiente, dava conta do recado. E eis que surge este professor que decidiu levar a prova oral todos os alunos com nota inferior a 14 na escrita.

A oral coincidia com o meu turno e bastaria um papel da faculdade para justificar a ausência. No entanto, o meu chefe aconselhou-me a sair por uma porta quase invisível da rede do aeroporto. Ele picaria o ponto por mim, “pois tinha sido lançada há pouco e isso poderia causar mau aspecto”.

Assim fiz e fui direitinha para a Nova. Toda a gente estava contente: as orais não demoravam mais do que 10 minutos! Também fiquei muito contente, tinha enfiado a matéria toda na cabeça, à força, na noite anterior.

Assim que entrei, comentou: “Vem com a farda da TAP? Tenho um aluno que está no exército, imagine se ele aparecesse aqui com os galardões que tem”. Ups, isto não vai correr bem…

Mas correu. Lá fui respondendo a várias (muitas) perguntas, convenci-me até de que sabia a matéria melhor do que pensava. Foi uma prova agradável, sorrisos e boa disposição para aqui e para acolá. De repente, diz: “É uma aluna com capacidade para, pelo menos, 14. Volte cá em Setembro para lho dar”.

À saída os colegas perguntaram o que se tinha passado. É que estive lá dentro 50 minutos! Nem respondi, saí da faculdade irritada, revoltada, furiosa. Dás-me o 14 em Setembro? Não, agora vou lá para o 17!

Estudei a matéria de fio a pavio e Setembro chegou. Fez uma pergunta, respondi ao pormenor. Nova pergunta, resposta completa. A meio da terceira interrompeu-me. “Já percebi que sabe a matéria, tem o 14”.

Quis estrangulá-lo, não me deu hipótese para tirar uma nota mais alta e merecida. Passei a ter-lhe um ódio de estimação. Quando via a cara dele numa crónica de jornal, por exemplo, virava a página com desdém.

E passaram muitos, muitos anos, até ao dia em que dei de caras com ele à entrada de um supermercado. Ia ignorá-lo, claro, mas quando vi no seu olhar aquele vazio, aquela tristeza que me era tão familiar, o ódio de estimação desapareceu, como se nunca tivesse existido.  Abordei-o, não me reconheceu até lhe contar episódio. Sorriu. “Lembro-me perfeitamente de si. Tinha um sorriso irónico e ainda tem”. Foi o princípio de uma preciosa amizade. Fomos felizes para sempre… até há pouco tempo.

Por causa de um concurso público fui buscar o certificado de habilitações que tem a descrição de todas as cadeiras e respectivas notas. Passei os olhos, mas só dias depois o li com atenção. E não é que ele me deu 13! Pus os óculos, não fosse um quatro disfarçado de três. Não, era um facto. Depois da odisseia toda deu-me 13!!!

Peguei imediatamente no telemóvel mas desliguei antes de se ouvir o som da chamada. Vou falar com ele para quê? O que ganho, ou o que ganhamos? Se calhar ainda nos zangamos e esta amizade é imensa, está acima de qualquer classificação. Não, não vale a pena, mesmo que gostasse de ver a cara dele, não vale a pena. Decisão tomada, nunca falarei com ele sobre o assunto. Assunto arrumado, encerrado, enterrado.

Professor….TREZE?

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