Covid-19 em Tires, e as crianças, senhor?

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Na cadeia de Tires há 150 reclusas infectadas com Covid-19. Para os justiceiros e populistas da nossa praça, que acreditam que nunca poderão passar por uma prisão, nem qualquer dos seus familiares e amigos, isso é um mal menor. Para eles, os presos são cidadãos de segunda que mereciam, todos, a forca mas, ao invés, passam os dias em hotéis de cinco estrelas com “cama, mesa e roupa lavada”. São os críticos que se consideram numa fila à espera de serem canonizados e cientes de que são gente pura, sem pecado, sem falhas e exemplares.

Na APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso, há uma carta de uma Mãe, afixada numa parede, para “memória futura”. É assim:

“Caros Amigos,

Durante anos critiquei a vossa Associação com a convicção de que vocês existiam para defender os assassinos e pedófilos que enchem as nossas cadeias. No dia em que o meu filho fez a sua licenciatura foi comemorar com os amigos para as Docas. Bebeu um pouco a mais e, no regresso a casa, atropelou uma Senhora na passadeira. Está preso.

Hoje sei, da pior maneira, a vossa utilidade. Sei que, nas cadeias, há milhares de pessoas bem condenadas mas a quem não se pode dar o título de criminoso por terem tido uma falha que pode acontecer a qualquer um.” Fim de citação.

Nas nossas prisões há gente má (que temos de recuperar) e gente que cometeu delitos menores (não pagou uma multa, injuriou alguém, conduziu sem carta). Merecem a cadeia? Sem dúvida! Podem ser considerados criminosos? Duvido!

De uma coisa estou certo: São cidadãos, seres humanos, gente! E estão à guarda do Estado que tem de os tratar com toda a dignidade, quanto mais não seja para lhes dar o exemplo que os pode levar à reabilitação. No entanto, o que acontece?

O Estado considera-os como cidadãos de segunda e não gasta, com eles, um cêntimo a mais do que o necessário para não morrerem à fome. A Covid-19 veio confirmar isso mesmo.

Nas cadeias não há um desinfectante. As celas não são limpas por falta de produtos de higiene. Camaratas com mais de dez reclusos, e uma única sanita, não são limpas com o cuidado necessário por falta, até, de uma gota de lixívia. As louças do refeitório são mal lavadas. Os familiares estão proibidos de entregar esses produtos aos reclusos que têm de os comprar nas cantinas onde os preços são de agiota. Os reclusos estão proibidos de usar máscaras por razões de segurança.

A APAR tem avisado, desde Março, que as cadeias são um barril de pólvora e que um simples infectado poderia provocar o caos em toda a prisão. A cadeia feminina de Tires foi o pior dos exemplos.

Mais de cento e cinquenta reclusas infectadas, juntamente com guardas e, provavelmente, funcionários, informa a comunicação social. Uma vez mais esquecendo o mais grave: E as crianças?

Em Tires há duas dezenas de mulheres com os filhos crianças que não têm a quem deixar. Estamos certos de que a Direcção-Geral (esta Direcção-Geral, por sorte de todos muito diferente das duas anteriores) zelará por elas. Mais uma vez sem os meios necessários porque o Orçamento-Geral do Estado tem a rubrica “prisões” na última linha. Depois dos apoios a animais irracionais. Depois das verbas para festejos e comemorações. Porque consideram os reclusos como “não gente”.

Esquecem uma coisa óbvia: Quem não aposta na reabilitação investe na reincidência! Que Deus lhes perdoe.

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