De faca na capa

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A propósito da capa da revista TV Guia desta semana, que tentarei descrever sem vomitar.

Ela dá destaque às exéquias fúnebres do ator Pedro Lima, falecido a 20 de Junho deste ano em consequência de um afogamento numa praia de Cascais, diz-se, por suicídio. O conhecido veterano das telenovelas da TVI, que começou a carreira como manequim e atleta de natação, estaria a enfrentar uma depressão há vários anos, com um infeliz desfecho. A capa em causa coloca ao centro uma foto onde se pode ver o filho primogénito, João Francisco, fruto de um primeiro casamento de Pedro Lima, a abraçar Anna Westerlund, segunda esposa do falecido, e dois dos filhos do ator com a ex-manequim. O semblante do rosto de todos é de óbvia tristeza.  Na lateral esquerda da capa, exibem-se as fotos de Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, e das atrizes Fernanda Serrano e Jéssica Athayde, ambas figuras da TVI, que marcaram presença no funeral. Além da foto do ator, no campo superior direito da capa, abaixo da foto da família, a frase em letras grandes “PEDRO LIMA. A VERDADE SOBRE A MORTE. INFERNO SECRETO”. Seguem-se as seguintes frases, em tamanho mais pequeno: “Quando e como começou a depressão”; “Gritos de ajuda”; “Os amigos ricos e a vida de luxos”; “Passado longe dos pais”; “O que vai ser dos filhos e o papel do mais velho”; “Todas as imagens do último adeus”. Suprema ironia, a revista oferece (por um preço extra) uma “faca de chef”.

Aviso já que não era fã do Pedro Lima mas como ser humano tinha-lhe respeito. Esta “publicação” só pode ter entrado em despique com o Correio da Manhã para ver quem desce mais baixo, e não é a primeira nem a segunda vez que faz destas. O assunto é demasiado doloroso e sério para se fazerem especulações e sensacionalismo perante o fim precoce e trágico de alguém que era estimado e acarinhado por muitos. Alguém que deixa cinco filhos, três deles menores, e uma companheira devastada pela perda do cônjuge de vinte anos e pai dos seus quatro filhos.

Diz o Código Deontológico dos Jornalistas, aprovado após o 4º Congresso da classe em 2017, no seu artigo 2: “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo (…)”. Ora, começa logo aí mal. Qualquer pessoa com o mínimo de esclarecimento classificará de sensacionalismo a exibição de imagens obtidas da família do ator e das exéquias fúnebres que mostrem a dor manifestada; tudo indica que o funeral foi feito com discrição por vontade expressa dos envolvidos, porém, certa imprensa resolveu não ter isso em conta, como se pode constatar pelas fotos obtidas de longe. A última parte do artigo 8 do CDJ é clara: “(…) O jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor”.

Pelos vistos, os valores mais altos do sensacionalismo e do vamos-vender-capas-a-todo-o-custo foram mais fortes do que o respeito pela memória de uma figura pública que morreu de repente, bem como o respeito devido a uma família em choque e deprimida com a perda de um ente querido. E isso leva-nos ao artigo 10: “O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos exceto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade, dignidade e responsabilidade das pessoas envolvidas.” Como é que mostrar imagens do funeral do artista, obtidas, ao que tudo indica, à revelia da vontade dos familiares e amigos, é respeitar o interesse público? Onde é que se respeitou o direito a um luto digno e sereno de todos, a começar pela viúva e pelos filhos do ator, com fotos como aquela que a revista exibe de forma despudorada na capa? E que dizer do péssimo gosto da oferta da “faca de chef”, quando se falou de uma ferida (autoinfligida, ao que parece) na carótida do malogrado ator?!

Recordar ainda que a Organização Mundial de Saúde publicou, há exatos 20 anos atrás, um manual para jornalistas e órgãos de comunicação social visando a prevenção do suicídio. Parece que na “redação” da TV Guia, os “responsáveis” por esta cobertura se esqueceram de ler tal manual. Bem como não devem ter reparado num artigo de 2019 do site das Nações Unidas, onde diversos media da América Latina estão a dar um exemplo positivo de dar a volta ao texto (ironia de propósito) para ajudar a prevenir o suicídio, através de uma cobertura sincera e frontal, mas lúcida e visando sempre que quem tenha este tipo de pensamentos, pode e deve procurar ajuda.

Esta malta poderia ter optado por fazer algo decente. Ter a coragem de falar deste drama, entrevistar psicólogos e sociólogos, falar do trabalho das linhas de apoio que evitam suicídios. Dar voz aos estudiosos dos vários campos do conhecimento humano que estudam esta desgraça, que qualquer ser humano com o mínimo de dignidade quer ver combatida. Falar do desinvestimento crónico da Saúde Mental em Portugal, que por si só encheria páginas e páginas dessa “revista”. Falar da pressão absurda a que o mundo do espetáculo, descrito numa ocasião pela grande Simone de Oliveira como sendo “de uma falsidade absoluta”, obriga a uma imagem de perfeição e vida de luxo tanta vez precária e falsa. Mas não. O verdadeiro jornalismo dá trabalho. E esse não se matou: foi assassinado há muito tempo.

A todos os que estão a passar por um inferno secreto e acham que o suicídio é solução. NÃO É. Escolham lutar. Escolham viver.

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