O HOSPÍCIO DA MANHÃ CRUA

CAPÍTULO IX

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Ficaram os dois a olhar para o escuro. A leste, a noite começava a perder a força. Uma claridade cinzenta, devagar, a rasgar o céu. Joaquim percebeu ali, no alto do castelo, que a única certeza que tanto procurara era a certeza do fim. O abismo não tinha fundo. Por isso mesmo, a queda nunca acabava. E isso, de certa forma, era um alívio. Começaram a descer. O céu estava a desbotar, a perder aquela cor de xisto e a virar cinza. A alvorada ia chegar, quer queiras quer não.

O nevoeiro que tinha guardado os segredos da Baixa e os fantasmas de Alfama estava a romper-se com o vento frio. O mundo real aparecia outra vez. As linhas dos telhados, as chaminés, as janelas a abrirem-se para o dia. Lisboa acordava sem pressa. Nada daquele fulgor das grandes cidades mecânicas que o Álvaro de Campos berrava nas suas crises de febre modernista. Era só o vagar de um bicho velho. Um bocejo antes de voltar à rotina de sempre, feita de caliça e fado.

À medida que os dois homens desciam as escadas e os becos em direção ao centro, o silêncio da noite foi caindo. Rompeu-se com os primeiros barulhos da vida viva. Coisas tímidas, ao início. O bater de uma porta de madeira lá longe. Uma roldana a chiar num poço. O latido rouco de um cão vadio debaixo de uma escada. Depois, a luz cresceu. E o cenário do café começou a encher-se de gente real. Gente de carne e osso. Embrulhados em xailes escuros e casacos gastos, mãos grossas do trabalho, a cheirar a peixe e a terra. Passavam por Joaquim e por Fernando com pressa, passos pesados, cabeça baixa contra o frio da manhã. Aquela gente não carregava o peso do universo ou mistérios intelectuais na cabeça. Carregavam a urgência do pão. O dia de labuta que vinha aí.

– Olha – murmurou Joaquim, parando junto a uma parede. Um ardina corria pelas esquinas. A voz de miúdo, estridente, rasgava o ar com os títulos dos jornais. A política e a vidinha do dia a impor-se à conversa da noite. Um grupo de varinas subia a colina com as canastras vazias à cabeça. Cheirava a mar, a escama e ao primeiro café cozido nas tabernas. Um carretão puxado por mulas passou por eles. As rodas de ferro faziam um barulho infernal contra o empedrado. Joaquim olhou para o homem que conduzia o bicho. Tinha a cara queimada do sol, os olhos fixos no lombo do animal. O horizonte dele era só a próxima entrega na Ribeira. Um homem inteiro, fechado na ação do momento.

– Olha para eles, Fernando – disse Joaquim.

Tinha a voz gasta, pesada de derrota e de uma inveja esquisita. Era o desespero de quem se percebe sozinho.

– Olha para o gajo das mulas. Ou para aquelas mulheres a subir a rua com o peixe à cabeça. Eles não têm heterónimos. Não passam a noite num tribunal de vozes a discutir se o carácter é uma máscara ou se a certeza mata a viagem. Eles sentem a dor nos músculos. A fome no estômago. O frio na pele. A vida deles não é literatura. É bruta, direta. À beira desta alvorada, com gente a trabalhar para não morrer de fome hoje… tudo o que falámos no café e lá em cima no Castelo parece uma palhaçada. Um capricho de burgueses entediados. Pensar demais não nos trouxe a verdade nenhuma, Fernando. Só nos tirou da vida. Criámos um deserto de palavras e o mundo continuou a pulsar lá fora.

Pessoa não parou. Continuou a descer com aquele passo curto e certinho. Trazia a aba do chapéu descaída para a frente, tapando os olhos daquela claridade cinzenta que já batia nos vidros das janelas mais altas. O sobretudo parecia ainda mais velho e poeirento à luz do dia. A pele dele tinha a cor da cera dos altares. Um homem feito de sombra, a sofrer com o sol.

Quando respondeu, não trazia raiva na voz. Era só uma aceitação fria. A certeza de que havia uma distância que nunca se ia fechar. O seu papel naquele xadrez.

– Estás a ser lamechas, meu caro Joaquim – disse Pessoa.

– Estás a idealizar a ignorância porque tens a cabeça cansada de pensar. Achas mesmo que o homem do carretão é mais feliz porque não lê filosofia? O sofrimento dele é igualzinho ao teu. Mas tem uma diferença lixada: ele não tem as palavras para lhe dar um nome. Ele sente o mesmo peso nas costas, mas acha que é só do trabalho ou da pobreza. Nós sabemos que o peso vem de estarmos vivos.

Pessoa olhou para a rua que se abria à frente.

– O nosso papel no teatro é este: assistir à alvorada dos outros. O operário faz a cidade com as mãos. O poeta faz a cidade não estando lá. Se fossem todos como ele, isto era só um formigueiro de pedra. Se fossem todos como nós, a cidade desfazia-se em fumo antes do meio-dia. Não peças ao pensador para pegar na enxada, nem ao trolha para escrever versos. O equilíbrio do mundo depende de os abismos estarem separados.

Chegaram ao fim da colina. A rua ia dar outra vez àquela grelha certinha da Baixa. O sol, ainda escondido atrás das colinas, já limpava a Rua do Ouro com uma claridade fria. Acabaram-se as sombras. Os dois pareciam duas figuras fora do tempo, quase ridículas no meio da claridade. Dois fantasmas que a manhã ia apagar. Os elétricos começavam a passar uns atrás dos outros. Aquele barulho de ferro nos carris avisava que a vida normal estava de volta. Chamava os homens para o trabalho. Joaquim percebeu que a noite tinha acabado. E com ela, aquele bocado de tempo que passara com o poeta, no meio do nevoeiro de Lisboa.

A manhã na Baixa não trouxe descanso nenhum. Trouxe uma barulheira de metal, uma luz crua que ardia nos olhos de Joaquim. Ele subiu ainda mais a gola do casaco. Queria tapar a cara. Fernando Pessoa, sem dizer palavra, fez-lhe um sinal com a cabeça. Um desvio. Começaram a andar em direção ao rio, contornando o Terreiro do Paço até darem com as ruelas que ladeavam o porto de Lisboa.

Ali o cenário era outro. Acabou-se o cheiro a cal e a história velha de Alfama. De golpe, cheirou a carvão, a óleo de máquina, a alcatrão fresco. E ao suor azedo dos estivadores a descarregar as fragatas.

Entraram numa taberna escura. O chão estava cheio de serradura para apanhar a lama da rua e a escarradela dos marinheiros. Um antro de sombras, fechado contra o dia lá fora. Ao fundo, numa mesa de madeira comida pela gordura e pelo vinho entornado, estava um gajo de óculos fumados. Cabelo em pé, cigarro torto preso ao lábio. Escrevia que nem um louco num pedaço de papel de embrulho. A caneta quase furava a folha. Parecia um motor a andar.

Era o Álvaro de Campos.

A presença dele ali partia logo aquela postura de padre que o Fernando Pessoa tinha. O Campos deitava cá para fora a febre das máquinas, a raiva do progresso. Aquele desespero de quem quer sentir tudo, de todas as maneiras, ao mesmo tempo.

– Ah, Fernando! Chegas com o dia, como os cadáveres e os cobradores de impostos! – berrou Campos. Nem levantou os olhos do papel. A voz saiu-lhe áspera, a cortar o murmúrio dos marinheiros que bebiam aguardente ao balcão. Tinha uma energia que parecia tremer as vigas do teto.

– E trazes contigo este rapaz. Olha para ele! Traz na cara o drama de quem ainda acredita na alma. Senta-te, meu caro! Bebe connosco o veneno da manhã. A metafísica deste burocrata que te acompanha só serve para as tardes de chuva. A manhã quer ação, quer barulho. Quer a raiva de quem sabe que o século vinte nos vai mastigar a todos. Se não formos mais rápidos do que as máquinas, já fomos!

Joaquim sentou-se. Foi um soco na cara passar do silêncio das ruínas para aquela barafunda de taberna. Olhou para o Campos, com aquele jeito de engenheiro louco. Depois olhou para o Pessoa. Fernando continuava imóvel, quase transparente na penumbra. Só a ver o boneco que ele próprio tinha criado a dar o espetáculo.

– Eu vim da noite, Sr. Campos – disse Joaquim, a tentar segurar a voz no meio daquela barulheira.

– Passeei com o Fernando pelo Castelo, pelo Cais das Colunas. Falámos da morte, do fim dos impérios, de virarmos todos água do rio. Mas a sua chegada foi uma bofetada nessa conversa toda. Como é que o senhor consegue cantar as máquinas e o barulho, se no fim de tudo o que nos espera é o mesmo silêncio esquisito? O operário e o poeta vão dar ao mesmo chão. De que serve correr tanto se o destino é a mesma vala dos impérios mortos?

Campos largou a caneta. Mandou uma palmada na mesa que fez tremer os copos de vinho e acordou os marinheiros ao balcão. Os olhos dele, por trás das lentes escuras, pareciam dois focos acesos. Uma lucidez de maluco.

– E que me importa o fim, homem?! – berrou Campos, chegando-se para a frente. O hálito a tabaco e a conhaque bateu na cara do Joaquim. – O erro do Fernando, o teu erro, o erro dessa gente toda do desassossego, é que passam a vida a ensaiar o enterro! Vocês querem a morte limpa, bonitinha, a desfazer-se no nevoeiro. Eu não! Eu quero a morte a rugir como o motor de um paquete! Se vai tudo acabar, se esta Lisboa, o porto, as máquinas e nós vamos ser mastigados pelo tempo… então que arda tudo no fogo alto! A vida não é para se pensar no fumo de um café. É para se berrar na cara do nada!

Bateu outra vez com o punho na madeira.

– Eu quero a dor dos ferros velhos todos. O cansaço de todos os estivadores. A velocidade de todos os comboios. Isto não é fugir da morte, Joaquim. É cuspir-lhe na cara! Não me fales de cinza. Fala-me do incêndio que a faz. Se sou uma sombra que passa… que seja uma sombra que desenha o contorno de uma labareda!

Álvaro de Campos soltou uma gargalhada das suas. Inclinou-se para trás e a cadeira de madeira estalou sob o peso. A caneta continuava espetada na mão, como uma faca apontada àquela ordem toda.

– Olhem-me para este! – exclamou Campos, apontando o cigarro aceso ao Reis. A cinza caiu em cima da mesa.

– Chegou o latinizado da Baixa! O homem que quer prender os motores do século vinte nas estrofes de Horácio. Diz-me lá, Ricardo: vieste de fato e gravata beber bagaço com os estivadores ou vieste só lembrar-nos de que vamos morrer com uma coroa de louros murchos na cabeça? Esta manhã não quer saber das tuas odes para nada, homem! A manhã é de ferro. É de aço. É de gajos que partem os dentes a descarregar carvão. Os teus deuses pagãos morreram todos na caldeira do primeiro barco a vapor que entrou na barra!

Reis nem pestanejou. Ficou estático, feito estátua. Olhou para o copo de vinho que o taberneiro tinha ali deixado. Com um dedo comprido, empurrou-o para o lado. Recusava o álcool barato como recusava o barulho do século. Com o mesmo nojo. Fixou os olhos frios e lúcidos primeiro no Campos, depois no Joaquim.

– Chamas-lhe fúria, Álvaro, mas isso é só o histerismo dos fracos – disse Reis. Tinha a voz branda, a correr como água em pedra polida.

– Corres atrás dos comboios porque tens medo de parar. Medo de ver que a tua alma está vazia. Queres sentir tudo porque não tens coragem para governar um único sentimento. O homem sábio, meu caro Joaquim, não berra contra o nada. Nem tenta correr com as máquinas. O homem sábio aguenta o fim com altivez. Sabe que os dias são moedas contadas pelo destino. A única vitória é colher o instante. Sem ilusões. Colhamos as rosas, Joaquim, porque o ano é curto. O resto é só barulho de um motor que vai avariar na próxima esquina. A pressa do Campos é a cobardia de quem não sabe envelhecer.

Campos deu um soco na mesa. Os óculos escuros quase lhe caíram do nariz, farto daquela mania de superioridade do médico.

– Mentira de estátua! – rugiu o engenheiro.

– Tu queres que o Joaquim seja um morto-vivo. Queres que ele olhe para o Tejo e veja o rio dos mortos. As tuas rosas estão secas no livro, Ricardo. Eu prefiro o cansaço real, o enjoo das máquinas, o horror de saber que este século nos vai esmagar a todos. Tu finges que não queres saber porque tens medo de sangrar. Preferes a geometria de um verso certinho à verdade de um soco no estômago. Joaquim, repara na cobardia deste helenista de pacotilha: ele propõe-te a paz dos cemitérios antes da hora. Quer que mates a tua dor para vires a ser um enfeite na estante de um betinho.

Joaquim, encurralado entre o barulho do Campos e o gelo do Reis, olhou para Fernando Pessoa. Ele continuava ali, calado, no meio da mesa. O eixo daquela roda. O criador em silêncio, a ver os seus próprios pedaços a morderem-se uns aos outros.

– Senhores – interrompeu Joaquim. A voz saiu-lhe gasta daquela noite sem fim, um tom que calou os dois heterónimos.

– Vocês discutem o método, mas o veredicto é o mesmo. O Sr. Campos quer que eu queime tudo o que sou no fogo do excesso, para que a morte só encontre cinza. O Dr. Reis quer que eu esculpa a minha dor numa pedra fria, para que a morte encontre um desenho perfeito. Mas onde é que fica o homem que eu sou no meio da vossa raiva e do vosso equilíbrio? Onde fica este segredo que eu guardo? Vocês dividiram o Fernando para aguentar a vida. Mas eu não me posso dividir. Eu sou um só. E este “eu” quadrado que me cabe é o meu castigo. Se a certeza do fim é a única coisa que nos junta nesta mesa, a vossa literatura não cura nada. É só o giz do mestre a riscar o fato antes de o deitar ao lixo. A vossa arte não me tira da solidão. Só a torna mais vistosa.

Reis inclinou a cabeça. Um aceno leve. Olhou para Joaquim com uma pena fria, distante.

– Tens razão, Joaquim. A literatura não salva ninguém da vala comum. No fim de contas, o destino não lê poemas nem quer saber da métrica para nada. Mas deixa-nos morrer com a postura correta. Entre o berro do Álvaro e o meu silêncio, a escolha não é sobre onde vamos parar. É sobre a dignidade do caminho. Manda quem se controla. Quem se entrega ao barulho da rua, morre. A arte é a aristocracia do desespero.

Campos sorriu de lado. Limpou a cinza do cigarro que lhe tinha caído nas calças com um gesto desleixado.

– Que morramos, então, Ricardo. Mas que o diabo me leve se eu não fizer barulho suficiente para acordar os teus deuses de pedra. Prefiro a sarjeta ao teu templo de gesso.

A taberna estava a encher-se. O fumo misturava-se com o bafo dos primeiros operários que entravam para a bucha da manhã. Homens a sério. Corpos que queriam comer, sem tempo para aquela conversa de malucos. A luz do dia avançava, bruta, sobre Lisboa. Deixava o Joaquim com uma única certeza: máscara nenhuma, por mais perfeita ou violenta que fosse, ia tapar o vazio que o espelho lhe mostrava todas as manhãs.

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