O problema não é só aquilo que dizem, mas os pontapés no pobre do português. A cada citação, mencionam o nome e repetem à exaustão ‘ele que…’, ou (cada vez mais) conjugam mal o verbo haver, ou esquecem-se de que há verbos em que o auxiliar determina se o particípio passado é ‘curto’ ou ‘longo’. Não compreendo como se pode pôr tanto analfabeto a comentar e a dizer ‘obviamente’ ou ‘tipo’, a torto e a direito, ou os relatores desportivos que afirmam que os jogadores, em lugar de darem o seu contributo ao jogo, passaram ‘a entregar mais do que outros’. É, pois, uma entrega, só não se sabe do quê.
Acresce que não sabem a segunda pessoa do plural dos verbos: ‘vocês concordam?’ em lugar de vós concordais. E é tratamento generalizado por você, seja militar ou um estudante à saída da faculdade. Aqui, só me lembro de, pelo menos no Norte, se clamar que ‘você é estrebaria’.
Por outro lado, a pobreza linguística e de raciocínio da maioria dos comentadores é absolutamente confrangedora. No dia 1, depois de um noticiário da tarde, houve um debate. As notícias passaram uma informação e uma jovem comentadora desenvolvia o tema ao contrário do que fora a notícia… O que dizer? O que pensar? Felizmente, estava acompanhada por dois outros, um jornalista e um conhecido político, que lá iam dando explicações sobre o significado de ‘regular funcionamento das instituições’. Vergonha alheia.
Isto faz-me lembrar a história da senhora que, há muitos anos, vendia nougat à porta do então Liceu Rainha Santa Isabel, no Porto. Dizia ela para os alunos que por ali iam à guloseima: ‘Falaindes, falaindes, nem sabendes o que habendes de dizer. Nem parecendes que andaindes a estudar’. Conto esta história muitas vezes, porque, cada vez mais, há gente que ‘nem parecendes que andaindes a estudar’, ou que andais a estudar.
Por qualquer motivo, que também não entendo, agora são todos comentadores do canal em que se apresentam. Ninguém sabe quais as respectivas especialidades ou aptidões. Por exemplo, vemos um comentador, que os meus muitos anos de Jornalismo me permitem saber a que partido pertence e qual profissão. O problema é que estava a debater o funcionamento das urgências, quando a sua especialidade nunca foi a Saúde. Ou ouvimos perorar sobre a área da Justiça quem tem formação na Defesa. Contudo, e para todos os efeitos, são ‘comentadores’. Toda a gente tem direito a uma opinião, mas não encharquem o telespectador com opiniões que não acrescentam nada. Cá para mim, e perdoem-me o neologismo, são quase todos ‘comentadeiros’.
Depois, cada vez mais raramente, vemos os mais velhos, capazes de desenvolver um raciocínio do princípio ao fim, pessoas que todos conhecemos e que, independentemente de concordarmos com eles ou não, dizem – finalmente e aleluia – alguma coisa de jeito. Repito, podemos discordar, podemos pensar que são mais à esquerda ou mais à direita, mais assim ou mais assado. Mas sabem do que falam e como falam.
Por isso, deixo aqui o desafio às televisões TODAS. Ponham a profissão de quem comenta, tanto mais que ser ‘comentador’ não é profissão de ninguém, ainda que, maioritariamente, sejam pagos por isso.
NOTA: Saíram os resultados de PISA 25. Agora queixam-se do que me queixo há tantos anos…



