OS PANOS QUE VIERAM DE LONGE

Vestuário, panos, tecidos de um modo geral, atravessam o mundo antes de chegar à prateleira onde vão ficar à espera de comprador. Isto é verdade, seja para a roupa de marca mais fashion e cara, para vestuário de pronto-a-vestir no dia-a-dia ou para panos de corte com os quais se pode pedir a qualquer alfaiate ou modista para que sejam transformados em camisas e saias. Em muitos países africanos são usados apenas enrolados à volta do corpo.

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Comprei panos no mercado de Chongoroi. Não fui à procura de nenhuma história. Fui apenas comprar panos. Daqueles panos coloridos, com desenhos fortes,  geométricos, animais, flores, folhas, formas que parecem contar qualquer coisa  mesmo quando não sabemos exactamente o quê. Panos que depois se  transformam em vestidos, saias, camisas, turbantes, decoração, ou servem para  as mulheres africanas carregarem os filhos junto ao corpo. Panos que, de tão africanos que parecem, nunca  me ocorreu perguntar de onde vinham. Até que alguém me perguntou. Fiquei a pensar nisso e descobri que a história destes panos é muito mais complicada do que as suas cores fazem supor.

Chamam-lhes frequentemente Panos Africanos, African Wax, Wax Print ou Ankara. Em muitos países africanos são simplesmente wax, pagne ou kitenge. E há aqui uma primeira ironia: aquilo que hoje reconhecemos imediatamente como tecido africano nasceu, afinal, de uma técnica indonésia.

O ponto de partida é o batik, uma técnica tradicional de Java em que a cera é utilizada para impedir que a tinta penetre em determinadas partes do tecido, criando desenhos e padrões.  Foi no século XIX que os neerlandeses começaram a tentar reproduzir industrialmente na Europa o batik. As imitações não conquistaram o mercado indonésio como esperavam, os indonésios preferiam o batik verdadeiro, mas, décadas depois, encontraram na África Ocidental um público que lhes deu toda uma nova vida.

A partir da segunda metade do século XIX, estes tecidos começaram a chegar às costas da África Ocidental. A empresa holandesa Vlisco, fundada em 1846, tornou-se uma das grandes protagonistas desta história. Por volta de 1852, os seus tecidos já eram comercializados em vários portos da África Ocidental e rapidamente ganharam popularidade na região. Ao mesmo tempo, soldados da Gold Coast que serviram no Exército Real das Índias Orientais Neerlandesas, entre 1837 e 1872, conheceram os wax batiks na Indonésia e levaram consigo para a então Gold Coast e para outras partes da África Ocidental não apenas os tecidos, mas também o interesse por eles.

Em 1893, o comerciante escocês Ebenezer Brown Fleming começou a importar tecidos encerados da Holanda para a Gold Coast, actual Gana. E foi aí que aconteceu uma espécie de acidente histórico: um tecido europeu, inspirado numa técnica asiática, encontrou um mercado africano que o transformou em outra coisa. Os tecidos deixaram de ser apenas uma imitação industrial do batik indonésio e foram sendo apropriados, reinterpretados e transformados em algo culturalmente africano.

As mulheres africanas deram nomes aos padrões, atribuíram-lhes significados, escolheram-nos para determinadas ocasiões, combinaram cores, criaram formas de vestir. Alguns desenhos passaram a funcionar quase como uma linguagem. O tecido deixou de ser apenas tecido. Tornou-se identidade, memória, estatuto, mensagem.

O pano samacaca é um tecido tradicionalmente usado em Angola e representa um símbolo cultural e de identidade para o povo angolano. Geralmente feito de algodão, o pano samacaca possui padrões e cores específicas que podem comunicar informações sobre a região de origem, a posição social, eventos importantes ou até mesmo crenças espirituais. Este tecido é frequentemente utilizado em eventos cerimoniais e ocasiões especiais, e carrega consigo um significado de tradição, história e pertencente para a comunidade angolana.

E, entretanto, a produção começou também a deslocar-se para África. A partir dos anos 1960, começaram a surgir fábricas de tecidos estampados em vários países africanos. No Gana, por exemplo, a Ghana Textile Printing Company (GTP), criada em 1966, foi criada precisamente para produzir no país African wax prints, fancy e Java prints, no contexto da política de industrialização pós independência. A Akosombo Textiles começou a produzir em 1967. Na Costa do Marfim, a Uniwax, criada em 1970, é uma das referências. Há também produção de wax e de tecidos semelhantes na Nigéria, Tanzânia e noutros países africanos. 

E há ainda uma particularidade que já me tinha chamado a atenção: os panos vindos do Congo parecem ter um estatuto especial. Em Luanda, são muito procurados e valorizados, talvez porque, no universo congolês (sobretudo em Kinshasa), o pagne seja também uma questão de fashion, elegância, estatuto e identidade.

Mas aqui aparece outra surpresa. Nem tudo aquilo que compramos como “pano africano” é produzido em África. Uma parte significativa da produção actual vem da Ásia, não da Indonésia onde teve origem, mas sobretudo da China, onde são fabricados os tecidos mais baratos que imitam o efeito wax. E a concorrência pelo preço é forte: mesmo os produtores africanos enfrentam dificuldades para competir com as importações mais baratas.

Em Angola, os designers de moda contemporâneos utilizam frequentemente padrões tradicionais para a criação das suas coleções de pronto-a-vestir

Olhei outra vez para os meus panos do Chongoroi, comecei a pensar que seria interessante saber onde tinham sido feitos. Não tenho a certeza, mas suspeito que alguns sejam da China. O que sei é que foram comprados num mercado em Angola e que, apesar de toda a sua aparência africana, tanto quanto sei, não existe hoje em  Angola uma fábrica especializada na produção destes panos.

E isso também tem uma história. Angola chegou a ter uma indústria têxtil relativamente significativa, com fábricas como a SATEC, no Dondo, a África Têxtil, em Benguela, e a TEXTANG, em Luanda.

Algumas destas unidades foram criadas ainda no período colonial e outras começaram a funcionar já depois da independência. Com a guerra, a interrupção da produção de algodão, a falta de matérias-primas e de financiamento e a degradação dos equipamentos levaram à paralisação dessa indústria. Houve, mais tarde, um esforço de reabilitação e relançamento das fábricas, mas sem sucesso. 

Há aqui uma ironia entre os panos tão apreciados e a falta de capacidade de Angola para os produzir. Procura parece não faltar. Basta entrar num mercado angolano. Basta olhar para os panos. Mas produzir cá não é fácil quando se compete com os preços da China. Em Chongoroi, ninguém estava preocupado com a origem do pano. Eu também não estava, confesso. Para quem compra, interessa o desenho, as cores, a qualidade, o preço e aquilo que conseguimos imaginar fazer com aquele pedaço de tecido.

Mas fiquei a pensar que há qualquer coisa de profundamente africano nesta história e, ao mesmo tempo, qualquer coisa de profundamente global.

vendedor de panos no mercado de Chongoroi
panos importados à venda online em Luanda
panos importados à venda online em Luanda

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