NO PAÍS DO DISPARATE

Vai uma pessoa apanhar um autocarro. Vê o número e em lugar do destino lê-se ‘Homenagem’. Percebi que se pretende assim, numa forma absolutamente ridícula, homenagear as vítimas da tragédia com o elevador da Glória. Mas tem algum jeito? Depois da triste figura de Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, na suposta homenagem às vítimas, só faltavam mesmo os autocarros com aquele dístico.

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Eu explico qual é a minha ideia mais básica: o Marquês de Pombal, um ditador (independentemente das obras que deixou feitas), depois do terramoto de 1755 terá dito: ‘enterrem-se os mortos e tratem-se os vivos’. Moedas, outro ditador, homenageia os mortos, mas dos vivos manda tratar as seguradoras e nem sequer tem uma palavra para quem, conforme se queixam as famílias, ficou no sofrimento da perda de entes queridos. E mais, o presidente da autarquia recusou comentar a carta aberta de familiares das vítimas com queixas de falta de apoios.

Recorde-se que, há um ano o elevador da Glória descarrilou, no dia 3 de Setembro, provocando a morte de 16 pessoas e ferimentos em 24 outras. Agora, no Largo da Oliveirinha, foi colocada uma oliveira de 150 anos e 16 blocos em calcário, com nomes das vítimas, sendo ali depositadas várias coroas de flores, na maioria brancas, mas também com as cores da bandeira francesa, nacionalidade de uma das vítimas.

imagem real

Naquele seu eterno tom de queixume, quase emocionado, Moedas, questionado sobre as cartas de familiares das vítimas e a falta de apoios, entendeu que era dia para as recordar e, não se percebe porquê, recusou comentar as queixas das famílias que denunciavam ‘um ano de silêncio e esquecimento’. Na missiva, divulgada pela RTP1, dizem mesmo que o único contacto que tiveram da parte da autarquia de Lisboa foi o convite para marcar presença na cerimónia de inauguração do memorial, em que se garantia o respeito pela privacidade, sem a presença de jornalistas. ‘Depois de um ano de silêncio, o que precisámos não era de sermos protegidos do debate, era finalmente fazer parte dele’, afirmaram os familiares das vítimas.

Também o guarda-freio André Marques, que morreu no mesmo descarrilamento, foi recordado por sindicalistas e colegas, que depositaram uma coroa de flores e guardaram um minuto de silêncio na Calçada da Glória, junto aos Restauradores.

Portanto, os autocarros homenageiam, a Câmara homenageia, Moedas quase chora e os familiares das vítimas, na sua grande maioria, continuam sem respostas e sem uma palavra da autarquia. Melhor fora que o presidente da edilidade chorasse menos e trabalhasse mais. E, sobretudo, que fizesse alguma coisa, além de impedir os jornalistas de trabalharem para dar voz aqueles que esperam justiça há um ano.

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