A Festa tem o nome do Avante, o jornal oficial do PCP. É uma espécie de relíquia de uma época em que os jornais partidários eram instrumentos essenciais de comunicação política. Hoje, o Avante já não é seguramente o principal meio através do qual o PCP fala com os seus militantes. As redes sociais fazem esse trabalho de forma muito mais rápida e eficaz. Mas o nome ficou. E talvez tenha ficado porque a Festa conseguiu tornar-se muito mais importante do que o jornal que lhe deu o nome.
Creio que a esmagadora maioria das pessoas que ali estará não vai comprar o passe de três dias, que custa 35 euros, para ler o Avante ou ouvir um dirigente do PCP. Vai pela música, pelas bandas, pelas tasquinhas, pelo teatro, pelas exposições, pelos amigos e por aquele ambiente de convívio que a Festa soube construir. Este ano haverá, entre outras iniciativas, uma homenagem a Luís Represas, artista popular que participou várias vezes na Festa e que morreu recentemente.
O PCP perdeu deputados, perdeu autarquias, perdeu eleitores e já não ocupa na sociedade portuguesa o espaço que ocupou durante décadas, mas continua a fazer uma coisa que nenhum outro partido faz: juntar milhares de pessoas durante três dias em torno de uma festa que é simultaneamente política, cultural e popular. E cada passe vendido é também dinheiro que entra nos cofres de uma organização que não vive apenas de votos.
De certa forma, é assim que o PCP consegue preservar uma comunidade política, cultural e afectiva, que todos os anos se reencontra na Atalaia. A Festa sobrevive ao declínio do partido porque há muita gente que já não vai lá propriamente pelo PCP. Vai pela Festa.
É uma ironia interessante. O PCP pode ter cada vez menos votos, menos deputados e menos autarquias. Mas, durante três dias, na Atalaia, continua a parecer um partido enorme porque a Festa do Avante adquiriu vida própria. E, em certos aspectos, é hoje maior do que o próprio partido.



