De sabonete na mão (teria aí uns três aninhos), eu soletrava:
– FENO DE PORI U GAL.
E voltei-me para a minha mãe:
– Ó mãe, o que é PORI U GAL?
– Não é PORI U GAL, filho, é PORTUGAL! Não vês que tem um travessãozinho lá em cima? É Portugal.
O que me chamara a atenção fora a estranheza do nome, porque ‘feno’ eu sabia bem o que era. Dava-o, às vezes, eu à burra da tia Chica e o Ti Zé Romão dava-o aos machos que tinha. Era seco. Portanto, não me passou pela ideia indagar a razão por que se havia de ter dado o nome de ‘feno’ a sabonete tão bem cheiroso. Que relação podia haver entre o sabonete e o feno?
Ainda em clave de recordações, lembro-me, como se fosse hoje, da cara espantada do Dr. Sanches e Brito, meu professor de Matemática, logo na 2ª aula do ano lectivo de 1956-1957, ao ver-me o caderno diário, leu que eu escrevera, como sumário da lição passada, «Revisão da materidade». Também aí eu ouvira materidade, escrevi materidade – e nem me pus a questão do que é que aquilo significava.
– É matéria dada, Zé Manel, matéria dada!
Jamais me esqueci! Nem da expressão que, depois, como docente, também usei, nem da observação do Dr. Brito.
Recordei-me, agora, dessa cena do poriugal e dessoutra da materidade, quando se me pôs a questão de importância de levantar os problemas. Aliás, posta a questão do ‘feno’, decidi-me a ir procurar a razão da nomenclatura. Achei-a: a designação «feno» foi pensada e adoptada pela Fábrica Santa Clara, a empresa que o criara, nos anos 30 do século passado, para destacar a fragrância fresca, herbáceo-verde e natural a feno cortado que distinguia o sabonete.

Nessa altura, importa frisá-lo, esse cheiro a feno cortado de fresco faria parte do quotidiano de larga percentagem dos Portugueses; raro seria aquele que, um dia, não tivesse parado, pela manhã, junto a seara acabada de ceifar, a haurir esse odor de restolho ainda com resquícios da brandura da noite: um cheirinho mesmo bom!…
Hoje, claro, «feno» é vocábulo que só nas aldeias se ouve. E esse cheiro é natural que seja ínfima a parcela da população portuguesa actual que, alguma vez, o tenha sentido.
Seja como for, é de aplaudir a empresa que soube manter a designação, no convite (raramente escutado, mas real), a um regresso aos bons e fortes odores campestres.
O sabonete contribuiu agora, no entanto, para chamar a atenção para uma frase – essa, sim, assaz sentida no dia-a-dia: «Tem piada, nunca tinha pensado nisso!». Sintoma evidente de que boa parte do nosso quotidiano se reveste de forte dose de passividade e distracção.
Escreva-me assim de repente o nome da rua onde mora, tal e qual ele está gravado na placa. Mais: a sua rua tem uma ou duas placas toponímicas? De mármore ou de azulejo? O mais normal é a resposta: «Tem piada, olhe, não sei, nunca tinha pensado nisso!».
Lembro-me sempre de ter entrado num café em Salamanca e ter perguntado ao proprietário:
– Desculpe: esta igrejinha aqui em frente do café é a de Santa Madalena?
O proprietário não me soube responder. E, por sinal, também nenhum dos clientes de ocasião tinha a menor ideia do nome da igreja.
Cito frequentemente, sem me preocupar muito, a propósito deste tema, a frase que li na nota 1 da pág. 14 do livro Génesis – A Origem do Homem e do Universo, de John Gribbin (Mem Martins, PEA, 1988), aí atribuída a Sir Fred Hoyle:
«As respostas não são importantes, as perguntas é que o são».
Desta feita, porém, quis ir mais além. Primeiro, quem fora Sir Fred Hoyle, de que deJohn Gribbin citava duas obras na bibliografia do seu livro – e fiquei a saber tratar-se de um astrónomo britânico (1915-2001). Tentaria, pois, descobrir em qual das duas a frase estaria consignada e em que contexto; preferia não continuar a fazer uma citação indirecta, como tem acontecido até aqui.
As primeiras diligências levaram-me a conhecer a frase no inglês original:
“In science answers are not important, it is the questions that are important.”
Por conseguinte, o autor situa-se no domínio da Ciência – eu é que ousei atirá-la para todos os domínios do conhecimento. E não estou arrependido, porque se me afigura ser essa uma legítima transposição.
A questão de saber do contexto da frase era, todavia, também importante para mim, que vejo, com demasiada frequência, frases de autores célebres citadas fora do contexto, nomeadamente como ‘epígrafes’ de livros – e, sabe-se, o contexto é fundamental para se ajuizar do real sentido duma afirmação.

A frase já aparecia outras vezes citada, sempre referida ao astrónomo, mas sem indicação de proveniência, referindo, porém, Philip Morrison como fonte. De facto, num artigo publicado, em 1964, na revista American Journal of Physics, Morrison explica que Sir Fred Hoyle proferira a frase, no decorrer duma reunião científica: «Estávamos juntos na assistência de uma reunião e, em resposta a uma observação feita da tribuna, ele deu-me um toque com o cotovelo e disse que estava errada. O orador tinha dito: «Estas são questões a que não podemos responder; não sabemos como lhes responder.» Hoyle sussurrou-me: «Em ciência, não são as respostas que são importantes, as perguntas é que o são» (p. 442).
Possam estas reflexões servir para que, pouco a pouco, todos saibamos pôr as questões nos seus parâmetros adequados, a fim de também se lograr obter, assim, a resposta mais lúcida.



