A SINFONIA DA PREGUIÇA

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Há uma orquestra que só toca no verão. Não sei onde se esconde durante o resto do ano. Talvez se desmonte peça por peça. Ou, talvez, quem sabe, continue a tocar baixinho, abafada pelo ruído dos dias apressados. Em agosto, porém, ouço-a refastelada, a bater o compasso com as pálpebras pesadas.

A abrir o concerto, o naipe dos sopros, com o piar entediado das gaivotas. Depois, a brisa, a empurrar a cortina que roça pelo chão. Ao longe, os clarinetes trazem-me vozes difusas. Conversas que se perdem antes de chegar até mim.

Entra então o mar, pelas cordas. O marulhar vai e vem, sem pressa, indiferente ao mundo, como se não soubesse o efeito que produz. Mas sabe. Sabe perfeitamente. Há qualquer coisa de blasé naquele ir e vir, ir e vir, no ondular ad infinitum da mesma nota perfeita.

Depois do almoço+, entra a percussão. O som miúdo da água da piscina. E, a sustentar a melodia, o pulsar das cigarras. Os tímbalos vibrantes e o calor em harmonia.  Eu, entre o sono e o sonho. Em transe.

O adágio demora-se. Ainda mais lento. Quase sem dar por isso, o meu respirar encontra o da cadela adormecida a meu lado. Sobe o peito dela, sobe o meu. Desce o dela, desce o meu. E, nesse movimento sincronizado e manso, deixo-me levar. É ela que me adormece.

Quando acordo, a luz já mudou. A tarde começa a cair e as cigarras deram lugar aos grilos. Entram as cordas, de novo, mas agora mais finas, mais espaçadas, num som que parece vir de todos os lados e de lado nenhum. Depois, o violoncelo. Uma nota grave e longa.

Fico deitada mais um pouco, a ouvir. Estamos a meio do verão. Ainda falta o segundo andamento desta  sinfonia da preguiça. Mal posso esperar.

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