O EXÍLIO DA INTELIGÊNCIA (Jorge de Sena)

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O exílio de Jorge de Sena foi a consequência inevitável de uma inteligência que recusava rebaixar-se à bitola da mediocridade nacional. Ao trocar a engenharia civil em Portugal pelas cátedras universitárias nas Américas, Sena não procurou apenas a sobrevivência, mas o oxigénio intelectual que o Estado Novo lhe negava.

No Brasil e, mais tarde, nos Estados Unidos, a sua carreira académica atingiu uma dimensão internacional fulgurante, transformando o engenheiro emparedado pela censura num dos mais respeitados ensaístas da sua geração. Contudo, esta consagração carregou sempre uma ironia amarga e tipicamente seniana.

Enquanto as prestigiadas universidades americanas disputavam a erudição do mestre, o Portugal burocrático e tacanho que o escorraçara continuava a preferir a segurança dos seus imbecis diplomados à incómoda altivez do génio. Sena brilhava no topo do mundo académico e sofria na solidão cultural do estrangeiro, mas a sua maior vingança contra a pátria foi provar que o “reino da estranheza e da estupidez” continuava exilado de si próprio, orgulhoso da sua própria ignorância enquanto os outros o aplaudiam de longe.

Como preâmbulo a esse afastamento físico, e no seu tom profundamente desmistificador de falsos heroísmos, ergue-se uma das suas composições mais célebres e fundamentais, escrita em Lisboa a 25 de junho de 1959, escassas semanas antes da sua partida. Intitulado “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, o poema diz o seguinte:

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Se esta mensagem a Goya assume um tom trágico, ético e profundamente humanista, a distância geográfica consolidada nas Américas fez brotar, nos anos seguintes, uma linguagem radicalmente diferente. No que toca à sátira direta à mentalidade portuguesa e à distância imposta pelo exílio, destaca-se a sua vertente poética mais mordaz, escrita a partir da década de 60, onde Sena destila o seu sarcasmo contra os intelectuais e o regime que ficou em Portugal.

Nos poemas onde se dirige aos “bem-comportados” que ficaram a pastar na segurança do regime salazarista, a sátira atinge o estatuto de cirurgia a sangue frio. Sena não chora a pátria com a brandura dos nostálgicos; ele ridiculariza-a. Do alto das suas cátedras americanas, o poeta lança farpas venenosas contra a “inteligentzia” caseira que, em Lisboa, competia por migalhas de prestígio oficial enquanto fingia uma resistência de salão.

Com versos curtos e uma dicção deliberadamente prosaica — despida de qualquer lirismo —, ele destrói o mito do “bom português”. Sena acusa os seus contemporâneos de terem transformado o país num condomínio de cobardes meritórios, onde a sobrevivência dependia da capacidade de baixar a cabeça e de aplaudir a mediocridade geral.

A sua poesia satírica do exílio torna-se, assim, um espelho deformante devolvido a Portugal: mostra que, enquanto ele padecia de uma solidão geográfica real, os que tinham ficado sofriam de uma castração mental voluntária. Para Sena, o riso sarcástico era a única forma digna de não ceder ao ódio nem à autocomiseração.

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