Ao abrir do segundo quartel do século XX, a cidade iria ganhar uma nova estética urbanística, impulsionada por Francisco de Almeida Moreira e outros mentores. Aquele, ao tempo, empenhado Director do Museu de Grão Vasco e Administrador-Delegado da Comissão de Iniciativa e Turismo, criada em 1926.
Os testemunhos desse ambicioso projecto ficaram marcados na elegante balaustrada que margina o Jardim das Mães, que irá receber o icónico bronze de Oliveira Ferreira (1883-1942), O Melhor Sono da Nossa Vida; nos elegantes candeeiros de jardim ali implantados; na vizinha Glorieta, que celebra o poeta Tomás Ribeiro, de 1931; em intervenções no Parque do Fontelo — a que pode acrescentar-se, desígnio maior, esse impressivo friso azulejar que cobriu a então designada “curva do Rossio”, singular na dimensão, intimista no sentir, inefável nessa poética de azul e branco que se solta sobre a clareza do dia, quando de tudo nos desprendemos para olhar. Data desta época, 1935, o título outorgado a Viseu de Cidade Jardim.
Colocado em lugar de honra, fronteiro aos Paços do Concelho, o visitante que passa e repara, é como se entrasse em familiar casa de aldeia, tirasse o chapéu e o dono da casa lhe dissesse que estava em sua casa. E o mandasse sentar e lhe servisse pão e vinho dos campos da Beira. Que esta é a imagem que ali repousa, contada em vivos cenários de um quotidiano de vida e alegorias formosas.

Solícitos pastores de manta e cajado, mulheres de capucha (a nobre vestimenta da serra tecida com a lã do gado) e o meigo retrato do rapaz nesse jeito de quem parece soltar-se para a vida, mas já enamorado, tocador de flauta inspirado. E o bru-á-á de uma feira: lavadeira de trouxa à cabeça, louceiras, vendedoras de fruta, pomos da Beira ou laranjas, quem sabe, em cestos de corra, amavios de homens da lavra ou pastores, cantos de desgarrada, ao desafio e as virtuosas donas passeando de sombrinha e saia rodada. Um mundo que se perdeu e ali ficou retratado!…

Joaquim Lopes (1886-1956), o artista por Almeida Moreira convidado, pintou este fresco, em horas de gostosa inspiração e a Fábrica do Agueiro, em Vila Nova de Gaia, executou, a mando da Comissão de Iniciativa e Turismo, este grandioso mural azulejar, inaugurado a 13 de Dezembro de 1931 e que logo transita para o património camarário, património da cidade, seu cartaz turístico de eleição.
A 17 de Maio de 2019, é oficialmente classificado como “Património de Interesse Municipal”, património da cidade, património de todos nós.



