A SOLIDÃO INFINITA

Na juventude, não é nada de muito extraordinário experimentar versejar. Muitos o fazem alguma vez, poucos insistem em continuar a fazê-lo pela vida fora. O livro de que vos quero falar chegou cá a casa pela mão do meu filho mais novo. Também ele experimenta a difícil arte de contar histórias em jeito de verso. Mas não foi por isso que o livro veio, mas porque ele teve de fazer um trabalho escolar e este livro serviu de base para a dissertação. Acabei por ler o livro também.

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A coisa passou-se assim: Franz Xaver Kappus escrevinhava uns versos e decidiu enviar alguns ao consagrado poeta Rainer Maria Rilke. Foi o início de uma troca de correspondência que, 20 anos depois, foi transformada neste livro.

Pelo que se depreende da leitura, o poeta Rilke não gostava de enganar ninguém. Logo na primeira carta, desencoraja o jovem poeta, recusa avaliar os poemas enviados, e escreveu isto: “não me pergunte se os seus versos são bons; pergunte antes se conseguiria viver sem os escrever. Se a resposta for sim, então não deve ser poeta. Se for não, então deve organizar toda a sua vida em torno dessa necessidade interior.”

A segunda carta aprofunda essa ideia. Diz Rilke que à excepção da Bíblia e da poesia de Jens Peter Jacobsen, os livros de outros autores podem ser interessantes, mas não fundamentais.

Há um aparente paradoxo nesta história, se por um lado Rilke parece desencorajar o jovem, por outro está a tentar salvá-lo de uma motivação errada. Não lhe diz “não escreva”. Diz-lhe: só escreva se escrever for tão inevitável como respirar.

O resultado foi que Franz Xaver Kappus nunca se dedicou à poesia. Acabou por seguir a carreira militar e publicou estas cartas apenas depois da morte de Rilke. É interessante notar que Kappus optou por não publicar as suas próprias cartas. Apenas conhecemos as perguntas e inquietações que dirigiu a Rilke através das respostas deste. Isso faz com que o livro tenha uma estrutura muito particular: lemos apenas metade da conversa, mas a outra metade é suficientemente sugerida para percebermos o diálogo.

Sem Kappus nunca conheceríamos estas cartas. Consciente do seu valor preservou-as durante mais de duas décadas. Acabou por desempenhar um papel decisivo na história da literatura, embora permaneça quase invisível na obra que tornou célebre.

Há uma ideia de que não gosto, mas que considero muito forte, quando Rilke afirma que as obras de arte “são de uma solidão infinita”. É demasiada angústia, demasiado sofrimento, e creio que não precisa de ser assim. O criador pode ser uma pessoa feliz.

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