Há poucas semanas, o chefe da diplomacia portuguesa colocava a tónica na necessidade de restaurar a normalidade democrática, defendia novas eleições e enquadrava a posição portuguesa nas decisões da CPLP, da CEDEAO e da União Africana. O discurso era essencialmente jurídico e institucional, assente na defesa da ordem constitucional.
Hoje, porém, sem renunciar a esses princípios, Paulo Rangel afirma algo politicamente muito significativo: “A Guiné-Bissau faz parte do ADN da CPLP.” Esta frase não é um simples exercício de cortesia diplomática.
É o reconhecimento de uma evidência histórica e política: não existe CPLP sem a Guiné-Bissau. O país participou na fundação da organização, desempenhou um papel determinante na afirmação do espaço lusófono e continua a ser uma referência incontornável da história comum dos povos de língua portuguesa.
Mais importante ainda, o ministro acrescenta que todos os Estados-membros desejam ultrapassar rapidamente a atual situação. Esta mensagem revela que a preocupação deixou de ser apenas a aplicação de sanções ou a reafirmação de princípios. Passou também a ser a procura de uma solução política que permita restabelecer a normalidade das relações entre a Guiné-Bissau e a CPLP.
Isto demonstra que a diplomacia portuguesa entrou numa nova fase. Os princípios permanecem os mesmos, mas o método evoluiu. Portugal percebe que um isolamento prolongado dificilmente contribuirá para estabilizar a Guiné-Bissau. Pelo contrário, o diálogo, a cooperação e a reaproximação institucional podem criar melhores condições para que o país reencontre um quadro de normalidade política.
Também merece destaque outro aspeto: Paulo Rangel passou a enfatizar o respeito pela soberania do povo guineense. Esta referência afasta qualquer ideia de soluções impostas do exterior e aproxima Portugal de uma lógica de facilitação diplomática, em vez de uma postura predominantemente sancionatória.
Naturalmente, esta mudança de tom não significa que Portugal tenha reconhecido automaticamente todas as opções políticas das atuais autoridades de transição. Também não significa que tenham desaparecido as reservas relativamente ao processo político guineense. Significa, isso sim, que Lisboa parece reconhecer uma realidade incontornável: nenhuma solução será duradoura sem diálogo, sem inclusão e sem um entendimento progressivo entre a Guiné-Bissau e os seus parceiros internacionais.
A diplomacia vive de sinais. E quando um ministro afirma que um país suspenso faz parte do “ADN” da organização que o suspendeu, está a enviar um sinal político muito claro: existe vontade de reconstruir pontes.
Cabe agora às autoridades guineenses corresponder a esse sinal, criando condições que reforcem a confiança internacional, consolidem as instituições e permitam que a Guiné-Bissau volte a ocupar plenamente o lugar que historicamente lhe pertence na CPLP. Em política externa, tão importante como ter razão é saber criar as condições para transformar essa razão em entendimento.



