O HOMEM QUE RECUSOU A MORTE DO FUTURO

Falar de Joaquim Murale é, para mim, um exercício de profunda emoção, intensificado pela saudade dolorosa da sua partida a 26 de maio de 2024. O privilégio imenso que tive de o poder tratar por amigo. Se a sua literatura impressiona pela beleza e pelo compromisso cívico, a sua convivência íntima era um bálsamo. Privar com o homem por trás do pseudónimo - o generoso António José Rocha - foi compreender que a bondade e a empatia que ele imprimia nas suas páginas não eram meros recursos estilísticos, mas sim a matéria-prima do seu próprio coração.

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A essência de Joaquim Murale residia exatamente nessa imensa capacidade de conexão humana. Havia nele uma gentileza intrínseca, uma forma de estar que desarmava e acolhia quem com ele cruzava caminho. Ser um homem enternecedor como poucos não era uma postura planeada; era a manifestação natural de alguém que olhava para o outro com verdadeira atenção, respeito e compaixão. Como amigo, Murale possuía a virtude rara da escuta atenta, aquela que valida o sofrimento ou a alegria alheia com um simples olhar ou uma palavra de profundo conforto. Apesar do seu vasto intelecto e do seu percurso profissional na área da Psicologia, ele caminhava pelo mundo despido de qualquer arrogância. Preferia sempre a proximidade, a tertúlia sincera e a simplicidade dos afetos, emanando uma serenidade que pacificava qualquer ambiente.

Quando nos debruçamos sobre a sua vasta obra literária, percebemos que os seus livros são o prolongamento exato desse coração desarmado que tive a honra de conhecer. Joaquim Murale escrevia com um compromisso inabalável de colocar a palavra ao serviço da dignidade humana. O lirismo tocante e a doçura melancólica ganham forma clara no seu celebrado romance “Dou Este Mar Por Um Céu de Andorinhas”. O título, por si só, já evoca a urgência poética de trocar a imensidão desconhecida e fria pela simplicidade acolhedora de um voo partilhado — uma metáfora perfeita do que ele próprio oferecia nas suas relações pessoais. Esse olhar humanista e combativo ganha uma força terna, mas irredutível, em obras como “Manifesto Contra a Morte do Futuro” e no comovente testamento poético de “Até ao Último Sopro”. Nestas páginas, o autor despejava as suas inquietações na esperança quase ingénua, mas belíssima, de mudar o mundo através da empatia.

A sua sensibilidade estendia-se também à análise social e à frontalidade cívica. No livro “O Áspero Tempo das Marionetas”, uma das suas mais marcantes obras de poesia, ele expôs com crueza, mas também com profunda mágoa e humanidade, as fragilidades e manipulações do nosso tempo. Já em “Alegoria do Mar”, a sua prosa poética coloca o dedo nas feridas da cultura, funcionando como um espelho crítico e, simultaneamente, apaixonado da alma portuguesa. Mesmo na escrita para o palco, em peças de teatro aclamadas como “Ao Atiçar do Lume”, Murale conseguia prender o público através de diálogos quentes, humanos e focados no calor das relações e das memórias.

O que torna a memória e a leitura de Joaquim Murale uma experiência tão avassaladora é a absoluta coerência entre o homem que ele foi na intimidade e a herança que nos deixou. Ao ler as suas páginas, sinto o pulsar do amigo bom que acreditava piamente na bondade humana; ao recordar o seu trato diário, reconheço a densidade e a nobreza dos seus livros. A sua vasta obra é, no fundo, o mapa de um coração generoso que escolheu a literatura para espalhar luz, afeto e consciência. Ele enternece-nos porque nos recorda, através de cada verso escrito e de cada abraço partilhado, o que de melhor a humanidade tem para oferecer. Saber que partilhei a vida com um ser humano desta grandeza é uma das maiores certezas e consolos que guardo comigo.

Joaquim Murale 1º a contar da esquerda (Jantar Tertúlia 2014)

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