A SOLIDÃO DOS COMPETENTES

Existe uma forma de solidão de que raramente se fala. Não é a solidão de quem vive sozinho. Não é a ausência de companhia. Não é sequer a falta de relações humanas. É uma solidão mais discreta e, muitas vezes, mais difícil de suportar. É a solidão dos competentes.

0
5
fotografia e grafismo

Ao longo da vida, algumas pessoas acumulam conhecimento, experiência, capacidade de análise e sentido de responsabilidade. Aprendem a resolver problemas, a antecipar dificuldades, a tomar decisões em momentos complexos e a assumir consequências. Esse percurso não acontece de um dia para o outro. É construído através de anos de trabalho, de erros corrigidos, de sucessos alcançados e de fracassos superados. Mas existe um momento em que muitos desses homens e mulheres descobrem algo inesperado. Quanto mais sabem, menos são ouvidos. Quanto mais experiência acumulam, menos espaço lhes é concedido para a utilizar.

A sociedade contemporânea valoriza frequentemente a novidade acima da profundidade. O imediato acima do duradouro. A aparência da inovação acima da substância do conhecimento.
Quem alerta para os riscos é muitas vezes visto como pessimista. Quem recorda experiências anteriores é acusado de estar preso ao passado. Quem procura ponderação é considerado lento num mundo que vive obcecado pela velocidade.

Muitos profissionais experientes conhecem bem esta realidade. São chamados para cerimónias, homenagens e discursos. Mas raramente são integrados nos processos onde poderiam continuar a contribuir. São respeitados simbolicamente, mas ignorados na prática. É uma forma subtil de exclusão.

A competência continua a ser reconhecida. O problema é que deixou de ser utilizada. E quando isso acontece surge uma sensação difícil de explicar. A pessoa continua capaz. Continua lúcida. Continua disponível. Mas percebe que o seu conhecimento deixou de ser procurado. Não porque tenha perdido valor. Mas porque a sociedade se habituou a procurar respostas rápidas em vez de reflexão aprofundada.

Esta solidão não afeta apenas os mais velhos. Também atinge profissionais de diferentes idades que recusam o facilitismo, que procuram fazer bem o seu trabalho e que mantêm um forte sentido de exigência consigo próprios. Em muitos ambientes, a competência pode tornar-se desconfortável. Porque questiona. Porque exige rigor. Porque desmonta ilusões. Porque lembra que os resultados dependem de esforço, preparação e responsabilidade. Por isso, os competentes encontram-se frequentemente isolados. Não por escolha. Mas porque a mediocridade organizada tende a proteger-se de quem expõe as suas fragilidades.

A história mostra, contudo, que as sociedades avançam graças a pessoas que persistem apesar desse isolamento. Investigadores, professores, médicos, engenheiros, artistas, empresários, trabalhadores anónimos e cidadãos comuns que continuaram a fazer o que acreditavam ser correto, mesmo quando o reconhecimento tardava. A verdadeira competência raramente é ruidosa. Não procura aplausos permanentes. Procura utilidade. Procura contribuir. Procura deixar algo melhor do que encontrou.

Talvez por isso a sociedade tenha o dever de prestar mais atenção aos seus competentes. Não para os transformar em figuras intocáveis.
Mas para aproveitar aquilo que sabem. Porque quando os competentes se calam, perde-se mais do que conhecimento. Perde-se discernimento. Perde-se memória. Perde-se capacidade de antecipar erros. Perde-se inteligência coletiva.

Uma sociedade que afasta os seus competentes não os torna menos competentes. Torna-se apenas mais pobre. E talvez uma das grandes tarefas do nosso tempo seja precisamente esta: criar condições para que o conhecimento, a experiência e a competência continuem a ter voz. Porque o futuro constrói-se com inovação. Mas sustenta-se sempre sobre aquilo que os competentes aprenderam antes de nós.


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui